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Várias formas de beleza e cultura nas artes

Discutir os diferentes olhares sobre a beleza em nossa cultura foi o tema central do simpósio “A beleza e a cultura”, realizado dia 26 de novembro de 2020, pela Academia Nacional de Medicina (ANM), que encerrou o ciclo de debates virtuais do ano. A programação incluiu reflexões sobre aspectos filosóficos e históricos relacionados ao tema, bem como a expressão da beleza nas artes. A abertura do evento foi feita pelo presidente da ANM, Rubens Belfort Jr e a coordenação pelo acadêmico Gilberto Schwartsmann.

“Ao longo da história, o belo se confunde com o bom e vem daí a associação que fazemos com virtude. Os palestrantes dessa tarde são pessoas de grande virtude em suas áreas de atuação e representam a cultura do nosso país. Eles irão nos revelar que a beleza pode nos surpreender na filosofia, no cinema, na música, na poesia, nas artes visuais e na medicina”, destacou Schwartsmann.

Na primeira parte do simpósio, para falar sobre a beleza nas artes, o professor Carlos Augusto Calil, da USP e ex-diretor-presidente da Embrafilme, fez um passeio por vários clássicos do cinema mundial. Nessa trajetória, apresentou trechos de obras emocionantes que marcaram gerações na telona. Entre estas, o filme “O segredo das joias”, do diretor John Huston, da década de 1950. Outro exemplar citado foi o clássico Drácula”, de 1931, do diretor Tod Browning, uma obra que até hoje é revisitada em vários remakespelo mundo e que aborda a beleza dos monstros.

A literatura foi representada pelo poema-manifesto “Cântico negro”, de José Régio, publicado em 1926, e recitado pelo acadêmico Gilberto Schwartsmann. 

O simpósio também contou com a participação do professor Francisco Marshall, professor de História da Arte, da UFRGS, que discorreu sobre “Kalokagatia: beleza, ética e sociedade” – kalokagathia é um conceito grego derivado da expressão kalos kai agathos (καλός καi αγαθός),que significa literalmente belo e bom, ou belo e virtuoso. O professor José Francisco Alves de Almeida, da Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, foi outro convidado e debateu o tema “Marcel Duchamp o conceito de beleza no século XX” e o maestro Evandro Matté, da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, que discursou sobre “Proporções e disposições harmônicas: a beleza na música”.

Na segunda parte do simpósio, acadêmicos foram convidados: os cirurgiões plásticos Talita Romero e José Horário Costa Aboudib Junior. A acadêmica Talita Franco falou sobre envelhecimento, beleza e tirania ao longo dos séculos e entre as diferentes culturas, citando o caso das chinesas que enfaixavam os pés para que os mesmos ficasse pequenos, ou costumes indígenas de fazer pequenas queloides de forma geométrica para enfeitar corpos; e a evolução das cirurgias plásticas e os casos de transtornos de autoimagem como o do cantor Michael Jackson.

Franco ressaltou ainda que “envelhecer não é associado ao belo, e hoje há um assédio de vários profissionais de outras categorias da saúde como dentistas, biomédicos e fisioterapeutas que prometem rejuvenescimento sem uma formação adequada. “Um tratamento estético mal feito é muito ruim para pacientes e também para a medicina.” 

O cirurgião plástico e também acadêmico José Horário Costa Aboudib Junior abordou o padrão de beleza fermina entre as diferentes culturas ao longo dos séculos. Desde imagens das esculturas de Venus 40 mil anos antes de Cristo até curiosidades sobre os corpos de tribos africanas no século XIX. Em sua apresentação ainda destacou que nos Estados Unidos, as mamas são o foco; no Brasil há a preocupação com as nádegas. 

“Entre 1970 e 2010, o crescente interesse pelas nádegas pode ser comprovado pelas capas da revista Playboy. Em 190, 66% das capas eram de mamas e 0% de nádegas. Em 2010, 66% das capas trouxeram nádegas femininas”, mostrou Aboudib. Estes fatos, segundo ele, levaram os cirurgiões plásticos a estudar e sistematizar, com bases anatômicas, a gluteoplastias de aumento com próteses de silicone. “Nós cirurgiões, temos extremos limites na arte de criar, pois somos escravos da anatomia. A beleza é fácil de identificar e impossível de definir”, disse.

Sinapses afetivas

O acadêmico Sérgio Augusto Pereira Novis acaba de lançar livro auto-biográfico em comemoração aos seus 80 anos. Revisitando a medicina desde os tempos em que iniciou na carreira, professor Novis exerce a função de neurologista clínico, principalmente em acidentes vasculares encefálicos, esclerose múltipla e neuro-aids. Membro fundador da Sociedade Brasileira de História da Medicina, foi eleito para a Academia Nacional de Medicina, em 1987, tendo ocupado a presidência da Secção de Medicina. Em 2016, tornou-se Membro Emérito.

Para conhecer mais sobre a vida e a obra do acadêmico Novis, visite o site https://www.anm.org.br/sergio-augusto-pereira-novis/.

O livro não está à venda e foi distribuído entre amigos e familiares.

Cápsulas fotográficas

Em sua última sessão de recentes progressos (19/11), a Academia Nacional de Medicina trouxe a médica do hospital Sírio Libanês, Fabiane Sartore, que abordou os impactos que as cápsulas endoscópicas trouxeram para o diagnóstico e a terapia mais assertiva no tratamento de problemas no intestino médio/delgado.

Até então, segundo o acadêmico José Galvão Alves, era uma região de difícil acesso, que impunha aos médicos um desafio no tratamento às cegas de uma área importante com comprimento de 4 a 6 metros.

Casos de anemia e sangramentos sem diagnósticos são indicações para que os pacientes ingiram as cápsulas que possuem micro câmeras e que tiram 2 a 6 fotos por segundo da região do intestino delgado.

Judicialização na saúde: a visão de juízes e promotores

Quando o assunto é saúde, e em muitos casos, isso significa gravidade, a justiça e os juízes brasileiros têm sido colocados diante de um enorme desafio, uma verdadeira escolha de Sofia, segundo o Procurado do Estado de São Paulo, Arnaldo Hossepian. A judicialização da saúde foi tema da sessão científica da Academia Nacional de Medicina, no dia 19/11.

O evento contou com a abertura do presidente da ANM, Rubens Belfort Jr, e a coordenação dos acadêmicos José de Jesus Camargo e José Galvão Alves. 

Outra participante foi a juíza Candice Jobim que expôs uma linha do tempo sobre o processo que levou o Conselho Nacional de Justiça a criação dos e-NatJus – um cadastro nacional de pareceres, notas e informações técnicas para auxiliar os magistrados com fundamentos científicos para decidir se concede ou nega determinado medicamento ou tratamento a quem aciona à Justiça.

O sistema, hoje nacional, conta com 27 NatJus, espalhados pelo Distrito Federal e unidades da Federação, com mais de 3 mil notas técnicas que, além de contribuírem nas sentenças, tem ampliando a oferta de medicamentos e serviços no SUS. 

Para ser elaborado, o sistema contou com parcerias dos hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein e visa avaliar as evidências científicas de um medicamento prescrito por médicos e mais do que apenas a efetividade: o custo x benefício também são avaliados. Ao conceder um medicamento a um doente, a Justiça poderá estar contribuindo também para a desorganização do SUS. Medicamentos com preços exorbitantes e sem comprovação de eficácia, privilegiam aqueles que conseguem impetrar mandatos na Justiça e impactam o sistema e o atendimento de vários dependentes do SUS.  

Através dos seus simpósios virtuais semanais, a ANM trouxe à tona em 2020 temas relevantes do cenário da pandemia pelo coronavírus e da saúde, para debates com a comunidade médica, cientifica e a sociedade em geral, visando gerar reflexões importantes na contemporaneidade.

Confira a íntegra das palestras no canal da ANM: https://bit.ly/3fz0hGL.

Judicialização na saúde: a visão dos médicos

“O principal agente das demandas judiciais é a ausência de afeto na relação médico-paciente”. Esta foi a citação que destacou o discurso do acadêmico José Jesus Camargo, que abriu o simpósio da Academia Nacional de Medicina, realizado na última quinta-feira (19), que abordou a judicialização em medicina – tema de grande relevância, visto que dados do Conselho Nacional de Justiça apontam aumento de 1.600% no número de processos judiciais por supostos erros médicos no país em um intervalo de 10 anos.

Para discursar sobre a especialidade de ginecologia e obstetrícia, o acadêmico Jorge Rezende Filho, da UFRJ, dividiu o assunto em três grandes eixos: obstetrícia médico-legal forense, erro médico e defesa profissional. O especialista pontuou aspectos legais de questões controversas como reprodução assistida e aborto e encerrou sua apresentação com 12 cuidados que poderiam evitar processos éticos-legais, dentre os quais se destacam a boa relação com o paciente, a postura ética e a transparência.

O cirurgião plástico e acadêmico José Horácio Aboudib, da UERJ, adentrou a discussão legal na cirurgia plástica, enfatizando que a especialidade em questão é a única em que o médico deve provar que não errou, e não o contrário. Um outro ponto de relevância em sua apresentação foi a problematização dos ditos “vendedores de resultados” – profissionais que utilizam de conduta antiética e desrespeitam os regulamentos do Conselho Federal de Medicina, prejudicando a percepção popular sobre a cirurgia plástica. Por fim, Aboudib afirma que o atendimento humanizado e a atenção ao paciente são tão ou mais importantes do que a eficiência técnica.

Sobre a judicialização em ortopedia, o médico Tarcísio Barros Filho, da USP, alerta para a tendência da “superespecialização” na especialidade – em outras palavras, se utilizar de títulos de especialista em mão, ombro e coluna, por exemplo –, que pode prejudicar a credibilidade do profissional e gerar conflitos. Barros Filho também aponta que as principais queixas com relação a conduta médica na área são mau posicionamento de materiais de implante e de fixação, e afirma que é importante tratar o paciente como gostaria de ser tratado.

A presença do acad6emico Raul Cutait, da USP e do Hospital Sírio-Libanês, levantou tópicos de relevância na judicialização da cirurgia. Em especial, Cutait relata que alguns procedimentos necessitam de grande competência técnica, estrutura hospitalar e profissionais especializados, mas que, muitas vezes, limitações fazem com que cirurgiões que não se sentem totalmente aptos se submetam à realização, podendo gerar conflitos. O especialista afirma que alinhar expectativas e ser transparente é a base de toda a resolução.

Já o cirurgião geral e oncológico Alfredo Guarischi, da UFRJ, abordou a judicialização na oncologia, destacando as principais causas: a frequência e a complexidade da doença, além da natureza experimental de alguns tratamentos, que podem ser paliativos ou curativos.

O acadêmico Antonio Egídio Nardi, da UFRJ, endossou a relação médico-paciente como fundamental para evitar questões de judicialização na psiquiatria. Outros pontos levantados foram a facilidade do acesso a tratamentos farmacológicos caros pelo SUS como uma alternativa bem-sucedida e a deficiência na assistência psiquiátrica pública como causa da judicialização em internação compulsória.

O acadêmico Silvano Raia foi outro convidado e enfatizou quejudicialização da saúde deve respeitar os princípios éticos e legais”. O acadêmico destacou dois conceitos: a ética do dever e a da responsabilidade. A primeira é para cumprir nosso dever como membros de uma sociedade; o outro conceito, da responsabilidade, é mutável e visa obter o bem.

“O número de ações judiciais vem aumentado progressivamente no Brasil em decorrência da falta de recursos e de acesso aos serviços de saúde, mas a lei da medicina tem que zelar pela saúde do ser humano”, enfatizou o acadêmico.

Mas por que o paciente judicializa? A médica Maíra Dantas, do Conselho Regional de Medicina da Bahia, tentou responder a essa questão. Segundo ela,isso ocorre para que o paciente tenha acesso aos serviços de saúde que a constituição garante, mas não provém. “A medicina não pode se submeter ao Código de Defesa do Consumidor, pois a medicina não pode ser mercantilista, porém, infelizmente, as filas do judiciário estão mais céleres do que as filas da saúde”.

 “A legislação foi um ganho social inquestionável e inexorável. Mas, prometemos algo que não conseguimos cumprir. A prática conflita com as dificuldades do nosso sistema de saúde. Há uma enorme desproporção entre as demandas da população e a oferta desses serviços. Além disso, nos últimos anos perdemos muitos leitos na esfera pública, privada, filantrópica e suplementar”. Dantas finalizou sua apresentação citando Carl Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”

Para ter acesso à sessão completa, veja o vídeo em nosso canal no YouTube https://bit.ly/33cVl55 ou aqui no nosso site.

Em defesa da Anvisa

Com cerca de 140 participantes e grande repercussão na mídia brasileira, a sessão científica “Vacinas e covid-19: registro e vacinação, prováveis cenários”, realizada no dia 12 de novembro, contou com diferentes segmentos da sociedade.

Entre os convidados, advogados, médicos, cientistas e jornalistas que debateram durante cerca de 6 horas. Ao final do evento, os presidentes das Academias Nacional de Medicina, Rubens Belfort Jr., da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, e de Ciências Farmacêuticas do Brasil, Acácio de Souza Lima, redigiram e lançaram um manifesto no qual condenam a politização dos testes da vacina contra covid-19. Para saber mais, acesse https://bit.ly/38WWt0u.

Anvisa – O papel e a defesa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foram um dos destaques da sessão. 

Segundo o presidente da ANM, prof. Rubens Belfort, a Anvisa pertence ao Brasil e precisa ser blindada contra interferências políticas. 

“A Anvisa é um orgulho da nossa geração de pesquisadores, médicos e profissionais da saúde. Eu tenho certeza de que falo por toda a ANM, com seus 100 acadêmicos, que vocês podem realmente contar conosco, e nós prometemos fazer o que for possível para aumentar a efetividade da Anvisa”, falou o presidente da ANM para o gerente geral de Medicamentos e Produtos Biológicos da Anvisa,Gustavo Mendes.

“Principalmente nesse momento de pandemia, onde se tem discutido muitas situações que põem em cheque o que é conhecimento científico, a Anvisa é um aliado na valorização da ciência nacional”, ressaltou Mendes.

O especialista destacou ainda os recentes avanços do reconhecimento global da instituição enquanto autoridade na área. “Desde 2016, começou um processo de convergência global que culminou, no ano passado, na aceitação da Anvisa como membro gestor do ICH, que é um dos maiores fóruns de agências reguladoras globais. Portanto, hoje, estamos no mesmo patamar que agências de referência a nível global”, disse Mendes.

Mendes dedicou sua apresentação a esclarecer os principias papeis nesse momento em que os estudos clínicos de vacina contra covid se encontram no país – atualmente, quatro vacinas estão em estudo no Brasil, incluindo as conhecidas Coronavac, do Instituto Butantã, e a vacina de Oxford. “Parte do papel da Anvisa no controle das boas práticas de fabricação é inspecionar os locais em que essas vacinas estão sendo produzidas para garantir determinados critérios”.

“Nós, profissionais da área, teremos que ser transparentes com a população sobre a porcentagem de eficácia, quem vai poder se beneficiar dessa vacina e quais os eventos adversos que pode trazer”, reforçou Mendes, destacando a rapidez e o foco total da Anvisa no cenário de urgência em decorrência da pandemia.

O ex-presidente da Anvisa, Gonzalo Vecina Neto, acrescentou que faltam políticas públicas de imunobiológicos no país. Para ele, essa falta de políticas públicas permite que aventureiros joguem dinheiro fora. 

A advogada Aline Mendes Coelho,especialista em Direito Regulatório e Sanitário, foi outra convidada do simpósio e, durante sua apresentação, fez um histórico sobre a Anvisa e seu papel nesse momento de pandemia.

Registro de vacinas de covid

O presidente da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo, afirmou que os brasileiros poderão ter a vacina contra covid-19 ainda no primeiro trimestre de 2021. Segundo Murillo, a companhia fabricará 50 milhões de doses até o fim de 2020 e o total para o ano que vem chega a 1,3 bilhão de doses para o mundo. A empresa já investiu US$ 2 bilhões no imunobiológico que possui uma tecnologia por RNA mensageiro.

O anúncio foi feito em sessão científica organizada pelos presidentes das Academias Nacional de Medicina, Rubens Belfort Jr., Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, e de Ciências Farmacêuticas do Brasil, Acácio de Souza Lima, no dia 12 de novembro de 2020.

Murillo ainda explicou que um dos desafios do imunobiológico, e já solucionado, foi a questão do armazenamento. Desenvolvida com a alemã Biontech, a vacina precisa de acondicionamento a menos 70graus e, para contornar esse problema, empresas parceiras desenvolveram uma embalagem especial que, com gelo seco, consegue conservar o imunizante por até 15 dias, sanando assim problemas logísticos de um país continental como o Brasil.

Sobre os valores de cada dose, Murillo explicou que a Pfizer tomou a decisão de criar três faixas diferentes de preços por dose, cuja aplicação vai depender do desenvolvimento de cada país. Haverá, portanto, um preço mais elevado para países mais avançados, como os Estados Unidos e os europeus, um preço para países intermediários, como é o caso brasileiro, e um terceiro preço menor para países menos desenvolvidos, “como a Bolívia”, de onde Murillo é natural.

Mais ofertas – Outro convidado dessa sessão, foi o vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Marco Aurélio Krieger. Ele abordou a parceria entre a instituição, a Unifesp, a universidade de Oxford e a farmacêutica britânico-sueca AstraZeneca e disse queessa vacina custará US$ 3,16 por dose aos cofres públicos. 

Krieger afirmou que o preço da vacina de Oxford é três vezes mais baixo que o dos imunizantes mais baratos em desenvolvimento e até dez vezes menor que o de produtos resultantes de operações totalmente privadas. Uma das razões para isso, é o fato da universidade de Oxford ter aberto mão de royalties, além da capacidade de fabricação já instalada nas plantas da Fiocruz e que deverão ser expandidas para atender a demanda. Com isso, o país se prepara para oferecer vacina de forma equânime entre os brasileiros, através do SUS e do Programa Nacional de Imunizações.

Para viabilizar a parceria entre o Brasil e a Inglaterra foram necessárias várias negociações com autoridades, congresso, instituições como a Anvisa, e evitar assim riscos jurídicos e, fundamental ainda foi o apoio da sociedade civil com doações que chegaram a mais de R$ 100 milhões, em um total de R$ 2 bilhões para fabricação dessa vacina. A expectativa é que a Fiocruz produza 100,4 milhões de vacinas no primeiro semestre de 2021 e 210,4 milhões ao longo de todo o ano que vem. A tecnologia desta vacina vem do uso de um vetor viral não replicante. Neste imunizante, adenovírus de Chipanzé, e que conferem uma proteção de 90%, segundo Krieger. E a Anvisa já ampliou para 10 mil o número de pessoas que participam dos testes com esta vacina. O imunizante está em teste em São Paulo, no Rio de Janeiro, na Bahia, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte.

Academia Nacional de Medicina discute registro de vacinas contra covid

O registro de vacinas contra covid será o tema do próximo simpósio promovido pela Academia Nacional de Medicina (ANM) em parceria com as academias Brasileira de Ciências (ABC) e de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB). O evento está programado para quinta-feira (12/11), a partir das 14 horas.

Entre os convidados, o gerente geral de Medicamentos e Produtos Biológicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gustavo Mendes Lima Santos, o presidente da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo, Marco Aurelio Krieger, vice-presidente de produção e inovação em saúde da Fiocruza, e a advogada Aline Mendes Coelho, com experiência na área de Direito Regulatório e Sanitário.

O evento, coordenado pelo presidente da ANM, Rubens Belfort Jr.,e o acadêmico Paulo Buss, ainda contará com Helena Nader, vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências, e Acácio Lima, presidente da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil.

Antonio Britto, ex-presidente da Interfarma, e Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa são outros convidados. Como debatedora, a jornalista do Estado de São Paulo, Roberta Jansen.

Serviço:
Simpósio “Registro e vacinação: prováveis cenários na covid-19
Dia: 12/11/2020 – quinta-feira
Horário: 14 horas
Web Hall da ANM: zoom/anmbr e transmissão ao vivo pelo Facebook/acadnacmed

Imortal na medicina e na arte

A Sessão Saudade, in memoriam, ao acadêmico Eustáchio Portella Nunes Filho, realizada dia 10 de novembro de 2020, pela Academia Nacional de Medicina (ANM), foi presidida com maestria pelo secretário geral da ANM, o acadêmico Ricardo Cruz, e contou com homenagens emocionantes do ex-presidente e acadêmico Jorge Alberto Costa e Silva e do acadêmico Antônio Egídio Nardi.

“Um grande homem, meu mestre. Um excelente médico, psiquiatra, psicanalista, cientista, intelectual, pensador e, acima de tudo, um grande humanista. Nos deixou um legado extraordinário e a imortalidade da sua obra acadêmica”, enfatizou o ex-presidente da ANM, Jorge Alberto Costa e Silva.

O ex-presidente também destacou o grande interesse do acadêmico Portella pela literatura e filosofia. Segundo ele, o acadêmico não somente participou da história da medicina, mas ele ajudou a construi-la. “Ele nos dizia que o papel do escritor não é apenas escrever, e sim, encantar.”

Para o acadêmico Antônio Egídio Nardi, o professor Portella marcou várias gerações de psiquiatras e permanece até hoje como um farol, guiando alunos de medicina. “Muito profícuo na produção de artigos e um amplo conhecimento de diferentes aspectos da psiquiatria, psicanálise, filosofia e humanismo. Um verdadeiro intelectual.”

Como é de praxe na Sessão Saudade, a família do homenageado se manifesta. Nesta ocasião, o médico Estevão Portela, filho do acadêmico falecido. Estevão começou sua apresentação citando Thomas Steams Eliot, poeta e dramaturgo que ganhou o Nobel de Literatura em 1948, e que o pai gostava muito. Estevão recitou trechos do poema “O tempo presente e o tempo passado”, que o acadêmico utilizou em seu discurso de posse na ANM, na década de 1980.

“O tempo presente e o tempo passado estão ambos, talvez, presentes no tempo futuro. E o tempo futuro contido no tempo passado. Se todo tempo é eternamente presente, todo tempo é eternamente passado, todo tempo é irredimível. O que poderia ter sido é uma distração, que permanece, perpétua possibilidade, num mundo apenas de especulação. O que poderia ter sido e o que foi convergem para um só fim, que é sempre presente”.

Estevão Portella, muito emocionado e em alguns momentos sem conseguir conter o choro, contou que as estantes de livros do pai continham mais livros de literatura e filosofia do que de medicina. “Eu e minha irmã fomos muito influenciados pelo interesse humanístico do meu pai. Meu pai foi feliz!”

Confira a íntegra da Sessão Saudade no nosso canal no YouTube https://bit.ly/3lCerci.

Cirurgia laparoscópica de forma didática e ilustrada

Durante a sessão científica da ANM, realizada no dia 29 de outubro de 2020, o acadêmico Rossano Fiorelli, lançou o livro “Cirurgia laparoscópica ilustrada: bases técnicas”, o qual divide a coautoria com o cirurgião Renan Couto, ambos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. 

 “Este livro não é somente prefaciado, mas dedicado ao mestre Pietro Novellino, ex-presidente da Academia Nacional de Medicina, pois foi escrito por três gerações de cirurgiões que foram seus alunos”, enfatizou Fiorelli.

Pietro Novellino, o grande homenageado no prefácio, comenta que a obra é enriquecedora mesmo para os iniciantes ou os que não têm formação cirúrgica. “Apresentar essa obra na Academia enaltece seus autores e enaltece a nossa instituição”, finaliza.

O acadêmico Rubens Belfort, presidente da Academia Nacional de Medicina, ressaltou a grande evolução da cirurgia laparoscópica nos últimos anos e reconheceu a excelência da obra. “Sem dúvida, este tipo de livro ajuda a medicina brasileira e, dessa maneira, evidentemente, contribui com os objetivos da nossa Academia”.

A publicação também contou com a participação de diversos professores do Departamento de Cirurgia Geral e Especializada e do Mestrado Profissional em Técnicas Assistidas e Minimamente Invasivas da UniRio. 

O cirurgião esclarece que a intenção do livro é apresentar ao leitor os conceitos mais importantes da laparoscopia de forma didática e ricamente ilustrada, contando com 485 ilustrações feitas à mão ao longo de 360 páginas.

Com a palavra, o também autor e pesquisador Renan Couto comentou que a ordem dos capítulos foi planejada da forma mais intuitiva possível, pois é organizada de tal forma que segue o fluxo habitual de uma cirurgia, desde a preparação da sala e dos equipamentos até os cuidados pós-operatórios.

Embaixadores brasileiros

A busca pela expansão dos horizontes tem levado médicos brasileiros para o exterior e muitos acabam permanecendo. E enchem o país de orgulho, em cargos de destaque de hospitais de renome, traçando trajetórias brilhantes.

Médicos brasileiros chefiando unidades de cirurgia nos Estados Unidos, Canadá, Qatar e Alemanha foram os convidados da Academia Nacional de Medicina, em Simpósio “A cirurgia brasileira no mundo” para apresentarem seus trabalhos em simpósio coordenado pelo ex-presidente Pietro Novellino e os acadêmicos José de Jesus Camargo e Rossano Fiorelli. 

Para o presidente da ANM, Rubens Belfort Jr., “são verdadeiros embaixadores brasileiros no exterior e que ainda somam ao receberem novas gerações de médicos que desejam se aperfeiçoar em outros centros médicos.” 

Entre os convidados, Rodrigo Vianna, formado na USP, e que hoje responde pelo maior centro de transplante de órgãos dos Estados Unidos, o do Miami Transplant Institute. Recheada de experiências, sua apresentação destacou os avanços tanto no transplante de rim, como de fígado e de intestino, assim como os perfis epidemiológicos das populações americana e brasileira e gastos em saúde em ambos os países.

A revolução tecnológica introduzida pela robótica na cirurgia pulmonar e os casos de transplante de pacientes com agravos pulmonares causados pela covid-19 foram apresentados pelo médico do Paraná, Tiago Nogushi Machuca, outro destaque brasileiro na Flórida.

O Honorário Estrangeiro da ANM, Tomas Salerno, hoje na Universidade de Miami, foi outro expoente da sessão. Em sua palestra “Enxergando além das lupas”, o brasileiro exibiu ainda, de forma clara e didática, uma rica cronologia das cirurgias cardíacas, traçando paralelos de comparação com os conhecimentos e técnicas da atualidade. 

E sobre os hospitais do futuro, o brasileiro Antonio Marttos, atualmente, no Ryder Trauma Center de Miami, mostrou como os hospitais estão conectados e oferecendo serviços de consultoria médica para outros profissionais de países distantes como Iraque, através de telemedicina, em apenas 15 minutos. 

O médico Robson Capasso, atuando na Escola de Medicina da Universidade de Stanford, abordou ecossistemas de inovação para aplicação na medicina e mostrou como empresas transnacionais e nacionais, que não são tradicionais da área da saúde, estão, cada vez mais, focadas em oferecer serviços médicos.

De Nova York, o médico Flavio Macher, do Albert Einstein College of Medicine, mostrou os tipos de inteligência artificial (IA) aplicadas à medicina: a IA assistida por robótica; a IA aumentada, na qual o robô auxilia o médico na tomada de decisão; e a IA autônoma, cuja autonomia é do robô que foi treinado pelos profissionais.

Canadá – Da PUC do Rio Grande do Sul para Toronto, o cirurgião Marcello Cypel foi outro convidado.  Cypel, é diretor cirúrgico da Universidade de Toronto. E apesar dos 15 anos no Canadá, jamais abandonou o Brasil em tempos críticos. No incêndio da boate Kiss, em 2013, veio diversas vezes ao país ajudar na recuperação dos jovens acidentados. Em sua palestra, histórias e avanços sobre transplante de pulmão, mudanças para preservação dos órgãos doados, estudos da fisiopatologia de cada órgão e a compatibilidade com os receptores desses enxertos.

Modelos de carreiras inspiradoras não faltaram durante a sessão. A médica Paula Ugalde, nascida no Chile, formada na Bahia e, atualmente, no Institut Universitaire de Cardiologie et de Pneumologie de Québec, no Canadá, foi outro destaque como palestrante. Ugalde reforçou os avanços nas cirurgias minimamente invasivas de pulmão e os resultados satisfatórios se comparados às cirurgias de peito aberto. 

Outro participante foi Stephan Soder, do Centre Hospitalier de lUniversité de Montréal, no Canadá, que apresentou tecnologias, minimamente invasivas, associadas a prática clínica para casos de câncer de pulmão. 

Outros destaques – Do Qatar, falou o médico brasileiro Sandro Rizoli. Especializado em serviços de trauma, Rizoli mostrou aspectos socioeconômico demográfico desse país da península arábica e como o sistema funciona articulado desde o momento do acidente nas ruas, a chamada emergencial, transporte e atendimento em uma abordagem global de cada paciente para estancar possíveis hemorragias. 

E de Berlim, o médico Ricardo Zorron abordou dogmas, ensinamentos e como pensar “não dentro da caixa e nem fora, mas sem caixas”. Mostrou de forma ilustrativa os avanços nas cirurgias bariátricas e outras que começaram experimentalmente no Rio de Janeiro e hoje são exemplos para o mundo.

Recentes progressos – Durante este dia, a ANM ainda promoveu a sessão de recentes progressos. E o câncer de fígado foi o tema central. “Avanços na terapia imunológica dos tumores de fígado” foi assunto da palestra do médico Fábio Marinho, do Real Hospital Português de Pernambuco. 

Marinho compartilhou importante inovação no tratamento de carcinoma hepático: a descoberta que a associação entre Atezolizumab e Bevacizumab oferece uma sobrevida superior à Sorafenib – droga de escolha desde 2008. “Para a primeira linha de tratamento dos pacientes com a doença, é um avanço que não se conquistava há décadas”, apontou.

O acadêmico Carlos Eduardo Brandão, aproveitou a ocasião, e destacou a conquista do Nobel de Medicina, neste ano, pelos médicos Harvey Alter, Michael Houghton e Charles Rice, que demonstraram que um vírus, até então desconhecido, era causa de hepatite crônica, além de terem isolado o genoma do vírus da hepatite C – avanços que permitiram grande redução da incidência de novos casos da doença e de diversas outras complicações do fígado.

A revolução tecnológica na medicina é uma realidade e os médicos brasileiros no exterior são motivos de orgulho para todos.

Academia assume Alanam

Em outubro foi realizada a reunião da Asociación Lationamericana de Academias Nacionales de Medicina, Espanha e Portugal (Alanam), sob a presidência da brasileira Academia Nacional de Medicina, Rubens Belfort Jr, a partir de agora, tem a dupla missão de presidir a instituição nacional e a Alanam.

 A Alanam reúne, além do Brasil, as academias do Chile, Uruguai, Paraguai, Equador, Costa Rica, Bolívia, Colômbia, México, Argentina, Venezuela, Peru, e República Dominicana e mais Portugal e Espanha.

   – A Academia Nacional de Medicina, com seus 191 anos, e os 100 acadêmicos, que representam os 500.000 médicos do Brasil, têm a honra e sabem desta grande responsabilidade. Belfort aproveitou o evento e ainda apresentou, de forma sucinta, a situação da covid-19 no Brasil, ressaltando aspectos da geopolítica e da epidemiologia da doença.

 –  A dimensão continental do Brasil e a grande disparidade econômica regional fez com que a epidemia se manifestasse em tempo diferente e com uma variedade grande de intensidade e mesmo mortalidade. Um foco que, inicialmente, não foi considerado importante foi na Amazônia, totalmente inesperado. A epidemia rapidamente ganhou dimensão muito grande na região Amazônica brasileira.

Para o presidente Belfort, várias lições foram aprendidas durante a epidemia por covid-19 e continuam importantes. Uma delas, segundo ele, é que temos que pensar globalmente, mas agir localmente, e a estratégia atual é levar em consideração a situação de mini regiões. Além disso, refletiu sobre as disparidades muito grandes entre ricos e pobres. Para ele, a próxima fase fundamental é pensar em vacinação.

 –  Acredito que a próxima etapa, e também isto se relaciona à toda América Latina, é discutirmos as vacinas. A Academia Nacional de Medicina do Brasil, desde março, teve importante liderança na informação e educação da sociedade sobre esses diferentes aspectos. Realizamos vários simpósios internacionais, inclusive com o apoio da Alanam, e atualmente nossos esforços estão relacionados às vacinas. Acreditamos que nos próximos muitos meses teremos que liderar e discutir as vacinas em relação a: qual, quando e como?            

 O presidente Belfort apontou ainda que a epidemia vai continuar durante muitos meses e não basta apenas termos dados descritivos da situação. Os números são mais ou menos os mesmos nos diferentes países e a problemática, acredita, é a de tentar resolver, tentar descobrir soluções. E para terminar seu discurso de posse, agradeceu ao presidente anterior da Academia Nacional de Medicina, o acadêmico Jorge Alberto Costa e Silva, pelo empenho na representatividade brasileira na organização e parabenizou o presidente Horácio Toro que o antecedeu na Alanam.     

Terapias do futuro

“A evolução das terapias avançadas é, sem dúvida, a evolução da pesquisa básica associada à clínica médica e cirúrgica e incorporada na prática médica”, destacou o acadêmico Marcello Barcinski, durante a última reunião científica promovida pela Academia Nacional de Medicina, no dia 22/10. O acadêmico Marcelo Morales acrescentou: “Estamos falando de terapias que estão chegando na ponta e algumas delas já estão na prática clínica aplicada à saúde e precisamos estar bem atentos e atualizados. A pesquisa está à disposição para melhoria da qualidade de vida das pessoas.”

O simpósio sobre “Terapias Avançadas – Células tronco, terapia gênica e nanotecnologia aplicada à saúde” contou com a abertura do presidente da ANM, professor Rubens Belfort Jr. que, na oportunidade, agradeceu aos coordenadores do evento, os acadêmicos Morales e Barcinski pela organização de uma discussão tão rica e relevante para sociedade civil e acadêmica. 

Entre os convidados internacionais, Bruce Levine, da University of Pennsylvania, que abordou o aprimoramento clínico no tratamento do câncer a partir da terapia como as células CART-T. Partindo-se do pressuposto de que o câncer provém da proliferação desenfreada de nossas próprias células, a terapia com células CAR-T consiste em turbinar as células de defesa do paciente e, com isso, aumentar a resposta imunológica contra a doença.

A terapia CAR-T, que significa do inglês receptor de antígeno quimérico, envolve a extração das células imunológicas do próprio paciente e, através da inserção de um vetor viral, um novo gene é introduzido nas células de defesa e, de volta ao organismo, é capaz de combater o tumor. Levine também abordou os limites éticos e legais da terapia, além do que ainda precisa ser aprimorado na técnica. E como histórias de sucesso, apresentou os casos de duas pacientes, Sophia e Emily, que receberam o tratamento – a última com sucesso, estando livre do câncer há alguns anos.

O médico Maroun Khoury, da Universidad de Los Andes do Chile, foi outro dos palestrantes convidados e apresentou resultados sobre as estratégias celulares que ajudam na restrição de respostas em doenças inflamatórias. O uso de células-tronco mesenquimais, que se configuram em uma população adulta de células que podem se transformar em uma variedade de tipos celulares, e sua aplicação no tratamento de doenças imunomediadas. As doenças imunomediadas se manifestam quando o sistema imune ataca as células saudáveis do próprio corpo.

A sessão também contou com a participação do professor Junk Soo Suk, da Johns Hopkins Medicine, que contou sobre pesquisa com base em nanopartículas de entrega de drogas, transportando composto farmacêutico no corpo para atingir o efeito terapêutico desejado. Suk ainda apresentou uma abordagem voltada para terapia genética sob inalação no tratamento de doenças pulmonares. O revestimento apresentado possui distribuição das nanopartículas nas superfícies das vias aéreas que são compostas de muco e que, normalmente, dificultam a distribuição da terapia.

Terapias do futuro no Brasil – “Terapia celular: o que significa?” Foi o tema abordado pelo professor Antônio Carlos Campos de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que definiu-a quando células viáveis são injetadas, enxertadas ou implantadas em um paciente a fim de efetuar um efeito medicinal. O professor explicou que comumente as células que são usadas em terapia celular são as chamadas células-tronco, como é feito há mais de seis décadas em transplante de medula óssea.

“Essas células-tronco podem ser autólogas, quando são do próprio paciente; alogênica, de um doador diferente ou senogênicas, quando são de outra espécie. Além do uso em transplantes, atualmente essa terapia pode ser usada para tratar problemas musculoesquelético, cardíacos, neurológicos, endócrinos e em processos de descobertas de novas drogas”, explicou Campos de Carvalho.

A professora Milena Botelho Soares, da Fiocruz Bahia, destacou os avanços da terapia celular em trauma raquimedular. Esse tipo de trauma gera várias deficiências graves em decorrência da pouca recuperação espontânea da medula espinhal. Segundo Milena, essas deficiências podem ser de paralisia parcial até completa, o que muitas vezes ocasiona distúrbios em outros órgãos. “A terapia celular vem sendo bem estudada para melhorar a função motora e sensitiva desses pacientes”.

“No inicio da pandemia pelo novo coronavírus, acreditávamos que só o pulmão era atingido, por isso o nome SARS-CoV-2  (Síndrome Respiratória Aguda Grave), mas hoje sabemos que a covid não só acomete o pulmão, a doença pode acometer o cérebro, coração, fígado,” enfatizou a acadêmica Patrícia Rocco. A pesquisadora, que também é da UFRJ, explicou que o processo inflamatório pela doença pode causar uma verdadeira “cascata” inflamatória e as terapias celulares estão sendo estudadas com alternativas de tratamento.

Durante a sessão, o presidente da ANM, Rubens Belfort, ressaltou o papel essencial do médico, compartilhando o caso em que o profissional, durante a pandemia por covid, optou pela respiração boca a boca em uma paciente com parada cardíaca, mesmo estando infectada pelo coronavírus. 

– Esse é o espírito da medicina. Colocar a vida do outro acima de qualquer coisa. Isso é uma atitude brilhante”, ressaltou. 

Também estiveram na pauta das apresentações: “Terapia gênica: o que significa?” com Rafael Linden; “Adenovírus-associado e seu uso como agente terapêutico”, apresentado por Hilda Petrs, ambos da UFRJ; “Terapia gênica e leucemias: linfócitos modificados como agentes terapêuticos”, com Martin Bonamino, do INCa; “Nanotecnologia e vacina em spray nasal para covid-19”, com Marco Antonio Sthefano, da USP; e “Ações do CNPq para apoio à pesquisa em terapias avançadas”, com Evaldo Villela, presidente da instituição de fomento à pesquisa nacional.

Sessão Saudade para Hiram Silveira Lucas

Em homenagem ao imortal Hiram Silveira Lucas, a emocionante Sessão Saudade, da Academia Nacional de Medicina (ANM), ocorrida no dia 20 de outubro, foi regada de lembranças e manifestações de afeto e reconhecimento a esse ilustre acadêmico, falecido no dia 17 de setembro de 2020, e que carimba a imortalidade por sua obra em prol da saúde.

Para homenagear e relembrar as contribuições do acadêmico, a sessão foi presidia pelo Secretário Geral, acadêmico Ricardo Cruz, e ainda participaram dessa celebração o ex-presidente Pietro Novellino, e os acadêmicos Omar da Rosa Santos e José Galvão-Alves.

“Meu sentimento é de profunda saudade. É um sentimento do qual não podemos ser removidos. Ponho em minhas palavras a força do coração, pois segundo Vitor Hugo, o espírito enriquece com aquilo que recebe e o coração com aquilo que dá”, salientou o ex-presidente Pietro Novelino. “Ao nosso querido Hiram, reverenciamos a emoção, pois lembrar é viver”

Os filhos do acadêmico, Rodrigo e Frederico, também participaram da sessão e ressaltaram o exemplo de dedicação e atividade brilhante e incansável em sociedades de classe e o reconhecimento de seus pacientes. Por fim, a viúva do acadêmico, Sra. Talita, fez um emocionado depoimento sobre os últimos meses de vida do acadêmico e agradeceu muito a participação de médicos da ANM na reta final dos cuidados e assistência em saúde. A esposa do acadêmico finalizou com uma frase: “Nos sentimos muito abraçados por todos, nossa gratidão eterna”!

Para conhecer mais da biografia do acadêmico Hiram Lucas, acesse https://www.anm.org.br/hiram-silveira-lucas/.

Atlas sobre ciclo do Toxoplasma

Acadêmico Wanderley de Souza lançou o “Atlas didático do ciclo de vida do Toxoplasma gondii”, em sessão científica da Academia Nacional de Medicina, no dia 15 de outubro de 2020.

Assinado em parceria com os pesquisadores Marcia Attias, Dirceu Teixeira, Marlene Benchimol, Rossiane Vommaro e Paulo Henrique Crepaldi, a obra ainda possui vídeo explicativo e direcionado à população. 

O Toxoplasma gondii é um protozoário que pode causar no homem a toxoplasmose com lesões agudas e crônicas. Segundo Wanderley, 2 bilhões de pessoas em todo mundo albergam o protozoário, mas apenas 10% desenvolvem sintomas.

Uma viagem pela medicina brasileira nos últimos 50 anos

Para comemorar o Dia do Médico (18/10), a Academia Nacional de Medicina convidou o Dr. Dráuzio Varella para sua sessão científica no dia 15 de outubro de 2020. 

O presidente da Academia Nacional de Medicina, Rubens Belfort Jr., ao anunciar o convidado, relembrou a amizade que os une, desde os tempos em que foi aluno de Dráuzio Varella. “É uma grande honra, uma grande alegria e um prazer receber você aqui hoje, quando ocupo este cargo.”

Varella fez uma verdadeira viagem pela medicina nos últimos 50 anos, abordou dos sonhos grandiosos de um jovem formado na década de 60 aos dias atuais. 

Dos primórdios de sua carreira, ainda durante a ditatura, relembrou alguns dos ideais de sua geração de formandos: acabar com a miséria, doenças como a tuberculose e baixar os índices de mortalidade infantil, além de alfabetizar todos os brasileiros. De forma crítica, refletiu ainda como sua geração acreditava que fazia parte de uma elite de médicos, cuja ascensão social estava garantida em consultórios particulares. E acrescentou como aqueles jovens das décadas de 60 e 70 tinham uma visão limitada para aspectos como racismo, machismo e homossexualidade. 

Mas, como relembrou, o mundo e o Brasil evoluíram, e os médicos daqueles tempos tiveram que se adaptar. Do direito à saúde limitado aos vinculados ao então INPS às conquistas do Sistema Único de Saúde (SUS), alçando o Brasil a exemplo de um país com um sistema universal e integral.

Dráuzio ressaltou ainda importantes programas nacionais que são reconhecidos mundialmente como o de imunização, de transplante de órgãos, transfusão de sangue, contra o HIV/aids, saúde da família. Hoje, o país, segundo ele, conta com 340 mil agentes de saúde da família.               

Defensor do SUS, Dráuzio relembrou os primórdios da criação de planos de saúde, na década de 90, e transformados em assistência suplementar, sendo responsáveis por parte dos atendimentos à população.

Em sua viagem pelos últimos 50 anos da medicina, Dráuzio ainda abordou os avanços da tecnologia e da robótica aplicados à medicina e o impacto das imagens na radiologia, nos exames e diagnósticos que evitaram as cirurgias exploratórias; além dos medicamentos de última geração e que permitiram controlar doenças como a aids e o câncer, entre outras. Além disso, ressaltou que médicos atuais precisam lidar com pacientes informados.

– Os médicos que nos precederam falavam sobre saúde nas praças. Na atualidade, a tela do celular se tornou o meio mais rápido de nos comunicarmos com os pacientes que são mais informados e, com eles, precisamos discutir a saúde, a doença e os tratamentos. 

Se avançamos em termos de tratamento por um lado; por outro, nossa forma de viver nos trouxe prejuízos para a saúde, disse. Hoje, segundo ele, 90% dos trabalhadores são sedentários, contra 10% na década de 60. 

A sessão ordinária da Academia Nacional de Medicina, em comemoração ao Dia do Médico, ainda contou com uma apresentação do secretário geral, o acadêmico Ricardo José Lopes da Cruz, que relembrou as origens da data, que foi criada no Dia de São Lucas. 

Lopes Cruz enumerou para os cerca de 100 participantes diversos pontos críticos na medicina brasileira atual e que ainda precisam avançar. Distribuição equânime de médicos pelo país, regulamentação das faculdades de medicina, falta de definição sobre a extensão da cobertura universal pelo SUS, regulamentação das filas, a necessidade de melhorias na integração entre os sistemas público e privado, a necessidade da integração dos dados, ponto que foi também mencionado pelo convidado Dráuzio Varella: por que até hoje não temos o cartão SUS? E Lopes Cruz mencionou ainda outros aspectos que merecem comemorações.                                                                       

E por fim, Dráuzio terminou afirmando que, em 50 anos de profissão, jamais se arrependeu da escolha que fez. “Continuo encantado pela medicina. Profissão caprichosa como a mulher amada, capaz de despertar crises inesperadas de paixão.”