O transtorno do espectro autista (TEA) deixou de ser tema restrito à infância e passou a ocupar o centro do debate médico. Foi o que mostrou a sessão dedicada ao assunto na Academia Nacional de Medicina nesta quinta-feira (08), organizada pelo Presidente Acadêmico Antonio Egidio Nardi e pelo Acadêmico Flávio Kapczinski. O encontro foi presidido pela Acadêmica Eliete Bouskela e reuniu especialistas da UFRJ e da UFRGS. Também marcou o lançamento do livro “Tratado Sobre o Transtorno do Espectro Autista”.

Professor Kapczinski abriu o simpósio com um alerta para quem atende casos de difícil tratamento: “Debaixo daquilo que a gente considera uma depressão refratária ou um transtorno bipolar refratário, muitas vezes tem um transtorno do neurodesenvolvimento, como o espectro autista”. Segundo ele, é comum o paciente chegar já usando muitas medicações e tendo passado até por eletroconvulsoterapia, quando “o que havia era um transtorno do neurodesenvolvimento que passou batido”.
Para explicar a alta nos diagnósticos, ele citou a ampliação do conceito de espectro, que uniu o autismo clássico à síndrome de Asperger, a maior conscientização e o acesso a atendimento. Os casos registrados no Brasil, segundo ele, passaram de 750 nos anos 1990 para mais de um milhão em 2023. O maior desafio, apontou, é a vida adulta: “É como se a gente ignorasse o fato de que essas crianças vão se tornar adultas. É um grande gap.”
A psiquiatra Laiana Quagliato, professora da UFRJ e integrante do Programa Jovens Lideranças Médicas da ANM, falou sobre adolescentes de baixa necessidade de suporte, que chegam ao consultório sem diagnóstico prévio. Eles costumam ir bem na escola, mas têm crises em casa. O motivo, explicou, é a “camuflagem” dos traços do autismo, que cobra um alto preço emocional. “Parecer adaptado não é o mesmo do que estar de fato adaptado”, resumiu.
Ela também rejeitou a ideia de que tratar seja tornar a pessoa “mais típica”: “O objetivo do tratamento é ampliar a qualidade de vida desses indivíduos, a autonomia e a participação na sociedade.”
A psiquiatra Cíntia Heidemann, da UFRGS, abordou o diagnóstico em adultos e fez uma das críticas mais duras da noite: “Enquanto alto potencial cognitivo, sucesso acadêmico ou profissional forem considerados elementos contra o diagnóstico de autismo, a gente não está fazendo ciência. A gente está apenas sofisticando o preconceito.” Ela alertou ainda para a vulnerabilidade de adultos autistas a golpes, exploração financeira e abusos, mesmo quando têm alto desempenho intelectual.
O neuropediatra Rudimar Riesgo, professor da UFRGS, criticou o que chamou de “espetacularização” do tema nas redes sociais. “Quem está na linha de frente sabe que não tem nada de glamuroso. A coisa é bem séria”, afirmou. Ele defendeu que os tratamentos sejam baseados em evidências e lembrou que “tudo o que se consegue com a terapia não medicamentosa fica para sempre”, ao passo que a medicação serve para reduzir o “ruído” em torno do transtorno.
Questionado por um acadêmico sobre a criação de centros de autismo em cidades pequenas, Riesgo disse que o gargalo é o número de profissionais, não o dinheiro. Ele defendeu centros regionais maiores, com supervisão especializada, como o modelo adotado no Rio Grande do Sul, com um centro em cada uma das 16 coordenadorias regionais de saúde.
Na parte dedicada aos “recentes progressos”, a neuropsicóloga Luisa Lage, da UFRJ, discutiu se um exame neuropsicológico pode diagnosticar o TEA. Sua resposta foi que ele ajuda, mas não decide: “As ferramentas diagnósticas e as baterias neuropsicológicas são informativas, mas não substituem o juízo clínico.”
A pesquisadora Carmem Gottfried, da UFRGS, apresentou evidências de que o gatilho do autismo pode ocorrer ainda no útero, especialmente no primeiro trimestre da gestação. Ela citou um estudo com mais de 600 mil gestantes sobre o ácido valproico, anticonvulsivante associado a maior risco. Entre filhos de mães sem epilepsia, apareceu uma criança autista a cada 121; entre as que usaram o ácido valproico, a proporção foi de uma a cada 39. Em modelos animais, a marca epigenética deixada pela droga chegou a ser transmitida por gerações. Gottfried foi enfática: o autismo “não decorre de uma única via biológica, mas da convergência entre fatores genéticos, ambientais e epigenéticos”. Por isso, segundo ela, já não se deve esperar um único marcador sanguíneo, e a medicina de precisão passa por análises que integrem dados clínicos, de imagem e moleculares.
A psiquiatra Mirela Vasconcelos Moreno, da UFRJ, destacou que cerca de 80% dos adultos autistas têm alguma comorbidade e que TDAH e ansiedade são as mais frequentes. Ela citou risco de suicídio cerca de três vezes maior nessa população e defendeu a busca ativa por ideação suicida, porque muitas vezes os pais não percebem. Sobre o diagnóstico, disse que “nem todo sintoma deve ser atribuído ao autismo”, e que o clínico precisa investigar o que é transtorno de base e o que é comorbidade.
Fechando as apresentações, a psicóloga Renata de Sanson Lemann, da UFRGS, tratou das terapias para adultos. Ela afirmou que o treino de habilidades sociais PEERS é a intervenção psicoterápica com evidência mais forte, e que a terapia cognitivo-comportamental funciona quando adaptada, com mais apoio visual e linguagem concreta. Lemann também apresentou, em parceria com o Acadêmico Kapczinski, um modelo em desenvolvimento chamado “validação e estruturação”.
Na discussão final, Kapczinski resumiu o espírito do encontro: o que se viu foi “uma fotografia de um campo em desenvolvimento”, e as dúvidas da plateia “são as mesmas que a literatura tem”.