Depressão de Difícil Tratamento é foco de atenção através de simpósio na Academia Nacional de Medicina

29/10/2015

A ANM discutiu o tema depressão na tarde e noite desta quinta-feira, 29 de outubro. Pela primeira vez, uma Sessão da Academia Nacional de Medicina foi realizada em videoconferência com o INCOR-USP. Coordenada em São Paulo pelo Acadêmico Fábio Jatene, a atividade contou com a presença de 10 Acadêmicos daquela cidade, que participaram em tempo real das perguntas e discussões, com um sistema de vídeo e som que funcionou perfeitamente.

Mesa Diretora em São Paulo: Prof. Puech Leão e Acadêmicos Silvano Raia, Sérgio Bydlowsky, Marcos Moraes, Fábio Jatene, José Eduardo Sousa, Mauricio Rocha e Silva, José Osmar Medina e Samir Rasslan
Mesa Diretora no Rio de Janeiro: Acadêmico Claudio Cardoso de Castro, Prof. Ricardo Moreno, Acadêmicos Adolpho Hoirisch, Jorge A. Costa e Silva, Francisco Sampaio (Presidente da ANM) e Antonio E. Nardi, e Prof. José C. Appolinário

Para surpresa de muitos, apenas um terço dos pacientes com depressão tem remissão do quadro – ficam totalmente recuperados – ao tomarem um primeiro antidepressivo. Este número aumenta para aproximadamente 50% quando se utiliza um segundo antidepressivo. Se considerarmos que a depressão é um problema de saúde pública, onde até 25% da população terá um episódio depressivo durante a vida, comprometendo seu desempenho individual, tanto no trabalho quanto na vida social, estes números são muito preocupantes e trazem um custo muito elevado. Temos ainda que levar em conta que a depressão é uma doença recorrente, isto é, caracteriza-se por episódios que podem se repetir independentemente do nível de estresse psicossocial. Com base nestes dados, a Academia Nacional de Medicina organizou o Simpósio “Depressão de Difícil Tratamento”. Os Acadêmicos Jorge Alberto Costa e Silva, Adolpho Hoirisch e Antonio Egidio Nardi coordenaram um debate de ideias, dados de pesquisa e de vasta experiência clínica.

Inicialmente, o Acadêmico Antonio Egidio Nardi apresentou breve histórico da evolução do conhecimento sobre depressão e os vários critérios para definir o que é a depressão resistente ao tratamento. Apresentou dados sobre o custo social e individual deste mal sempre presente na clínica de todas as especialidades médicas. Esclareceu a diferença entre remissão (recuperação total) e resposta ao tratamento (melhora, mas alguns sintomas persistem). A simples melhora, apesar de trazer alívio para o paciente, aumenta o risco de novos episódios e traz prejuízo crônico para a qualidade de vida do indivíduo. Alertou que o maior perigo está em o paciente melhorar, se sentir aliviado do sofrimento maior e interromper o uso da medicação. Em geral, a depressão nestes casos retorna com maior gravidade.

Em seguida, o Prof. Marco Antônio Brasil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na palestra “Depressão no Hospital Geral”, apresentou dados sobre a frequência de depressão em pacientes com outras doenças. Afinal, quem tem depressão pode ter outras doenças associadas, como hipertensão arterial, diabetes, câncer e vice-e-versa. Estes pacientes têm uma chance menor de que o diagnóstico de depressão seja realizado e, mesmo quando identificado, raramente são tratados de forma correta. Mostrou que, muitas vezes, doenças incapacitantes são associadas à depressão, e o tratamento adequado da depressão pode atenuar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida destes pacientes. A persistência da depressão aumenta o risco de complicações médicas, de prejuízo pessoal e o custo social. Em especial, aumenta o risco de suicídio nestes pacientes.

Depois, o Prof. José Carlos Appolinário, também da UFRJ, apresentou as inúmeras possibilidades de tratamento medicamentoso e psicoterápico para a depressão de difícil tratamento. Entre elas, a troca do antidepressivo, a associação com outros antidepressivos ou outras drogas, como o lítio e hormônios tireoidianos. Ressaltou ainda a possível chegada ao mercado de novas substâncias antidepressivas, como a esketamina, ainda está em fase de pesquisa quanto à segurança e eficácia, que poderá trazer alívio rápido para quadros depressivos graves e resistentes.

Na conferência da noite, o Prof. Ricardo Moreno, da Universidade de São Paulo, apresentou “60 anos de antidepressivos: o que há de novo?”. O Prof. Moreno fez um histórico dos antidepressivos na prática clínica e explicou como este grupo de medicamentos mudou a realidade do dia-a-dia de pacientes e psiquiatras. A psiquiatria, nestas últimas décadas, aprendeu a lidar com um futuro melhor para os pacientes com depressão, mas nem tudo são flores. Como ressaltado no início, muitos pacientes não melhoram totalmente e queixam-se de muitos efeitos colaterais. O ponto otimista da apresentação foram os novos antidepressivos, mais eficazes e com menos efeitos colaterais, que estão surgindo no horizonte.

Todas as apresentações foram enriquecidas pelos comentários e perguntas dos Acadêmicos Jorge Alberto Costa e Silva e Adolpho Hoirisch. Ambos descreveram seus mais de 50 anos de experiência no tratamento de pacientes com depressão. Contaram, com conhecimento científico, as mudanças na prática psiquiátrica com a chegada dos antidepressivos e as esperanças de um futuro melhor para os indivíduos que sofrem desta doença grave.

Ainda nesta noite, mereceu destaque a desmistificação do eletrochoque foi desmistificado, mostrado como prática de primeira linha para o tratamento de depressão grave

Durante o simpósio, foi desmistificado e atualizado, pelo psiquiatra e Acadêmico Antonio Egidio Nardi, o uso da eletroconvulsoterapia – o famoso eletrochoque – na depressão refratária e grave. Este tipo de tratamento é sempre questão de grande preconceito, mas todo preconceito é fruto do desconhecimento. Salientou que a eletroconvulsoterapia é, em toda a medicina, o assunto onde existe maior distância entre o conhecimento leigo e o conhecimento científico. Os filmes de Hollywood e a imprensa sensacionalista persistem em maldizer e colocar o eletrochoque como procedimento de tortura, mas, na realidade, ele é seguro para o paciente e muito eficaz. Pode-se contabilizar, nos últimos 60 anos, mais de 50 filmes famosos, nos quais a eletroconvulsoterapia aparece como procedimento desumano. Hoje em dia, sabe-se que é o tratamento mais eficaz para depressão grave, superando todos os antidepressivos e suas potencializações. O Acadêmico Nardi apresentou um levantamento das aplicações de eletrochoque realizadas de 2005 a 2007 no Instituto de Psiquiatria da UFRJ – único hospital público no Rio de Janeiro a oferecer este tipo de tratamento. Ao longo dos últimos anos, o eletrochoque tem sido muito aperfeiçoado e aquela imagem do paciente sendo contido por 4 a 5 enfermeiros, e com um chumaço de gaze na boca, é coisa do passado.

Aplicação do eletrochoque no passado

Atualmente, utiliza-se um médico anestesista, sedação com agentes de curta duração, relaxantes musculares, pré-oxigenação cerebral e eletroencefalograma para monitoração da crise, bem como melhores dispositivos e melhores formas de onda de choque para ministrar o eletrochoque transcraniano.

A Associação Brasileira de Psiquiatria, em seus princípios básicos publicados em 2005, considerou o eletrochoque (eletroconvulsoterapia) um tratamento consagrado ao longo do tempo. Apresenta uma taxa de resposta de 80 a 90% como primeiro tratamento e de 50 a 60% em pacientes refratários aos medicamentos. Afirmou, ainda, que a eletroconvulsoterapia é o tratamento mais seguro e eficaz para a depressão em mulheres grávidas e em pacientes cardiopatas, condições em que os medicamentos estão muitas vezes contraindicados. 

Concluiu que o método é a primeira escolha para depressão grave com risco de suicídio e outras indicações em quadros com gravidade significativa. É eficaz em mais de 50% dos pacientes refratários à farmacoterapia, e passou a ser a primeira escolha em alguns casos, como: 1) Depressão grave com sintomas psicóticos, 2) Estupor catatônico, 3) Risco de suicídio, 4) Recusa alimentar com grave desnutrição e 5) Depressão grave durante a gravidez.

A figura a seguir mostra as principais indicações para o uso de eletrochoque no Instituto de Psiquiatria da UFRJ nos últimos 8 anos.

Principais indicações para aplicação do eletrochoque na UFRJ

O presidente da Academia Nacional de Medicina, Acadêmico Francisco Sampaio, lembrou que um dos maiores problemas da depressão é o seu desconhecimento. Disse ainda que os filmes fantasiosos de Hollywood, bem como modalidade de aplicação do método há 60 anos atrás, sem o uso de anestesia e sem relaxamento muscular, causou por vezes algumas complicações, inclusive fraturas, o que levou à criação de forte preconceito ao método em todas as camadas sociais da população, inclusive entre os médicos. Elogiou a iniciativa dos psiquiatras e Acadêmicos, Costa e Silva, Hoirisch e Nardi, por terem organizado este importante simpósio e contribuído para a eliminação do preconceito quanto à doença e seus tratamentos.

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