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Minha melhor história médica: coletânea de emoção e humanismo

30/03/2021

Poderia ser facilmente um bate papo entre amigos, em uma tarde descontraída num café nos arredores da Av. Paulista. Ali, estaríamos envolvidos pelas boas memórias e fatos marcantes sobre a vida de cada um sentado à mesa. Contudo, estávamos conectados – cada um em uma parte do país – em uma reunião on-line, com mais de 100 espectadores, ouvindo com o mesmo deleite e emoção as melhores histórias médicas de 19 renomados cirurgiões que nos conduziram para aquele cenário imaginário intimista e de tamanha leveza. 

Os relatos mais importantes vividos à luz da experiência e de anos da prática cirúrgica foram o tema da sessão científica da ANM, realizada no dia 25 de março, sob o título “Minha melhor história médica”, coordenada e idealizada pelo acadêmico José de Jesus Camargo. 

O espaço aberto deu foco a narrativas médicas com intuito de trazer lições e vivências que marcaram a trajetória destes renomados profissionais e que “não estão nos livros e nunca estiveram.”, afirmou Jesus de Camargo, dizendo na abertura:

– Esperamos que este compartilhamento de experiências contribua positivamente no enriquecimento na formação dos novos cirurgiões brasileiros. 

Foram histórias emocionantes, alegres, dramáticas, engraçadas, inspiradoras e reflexivas que expuseram a alma de cada narrador e brindaram a audiência, que retribuiu com aplausos a cada conto exclamando “Incrível!”, como mencionou um participante. 

A sessão foi marcada pela humanidade e sentimentos aflorados. É difícil traduzir a emoção, o que vale mesmo é assistir. Confira na íntegra pelo nosso canal do YouTube https://bit.ly/3wclNcg.

Histórias brilhantes de humanismo e medicina 

O presidente da Academia Nacional de Medicina, professor Rubens Belford Jr., também compartilhou uma de suas histórias que lhe marcaram como profissional. Em uma narrativa dramática, contou que vivenciou as três grandes epidemias dos últimos anos, todas elas com comprometimentos oftalmológicos: aids, zika e agora covid. Três situações em que a cegueira e a morte estão, frequentemente, próximas. 

Belfort relatou uma história relativa à aids, na década de 80, quando sem drogas antivirais, o prognóstico era devastador. Ele conta que um jovem, acompanhado da mulher, também bancária, diagnosticado com HIV e um mau prognóstico, já com sinais da síndrome clínica da aids, tinha muito medo de morrer, mas o segundo grande medo era a cegueira. 

Meses sem dar notícias ou retornar, eis que surge em uma outra consulta. Desta vez, o paciente se apresentou com um médico emagrecido, com lesões na pele, cegueira total de um olho, acompanhado da esposa da qual Belfort reconheceu e seu confundiu, expressando: “Seria um segundo marido também com aids?”

Logo, o paciente pede para trazer a ficha de outra pessoa e, inicialmente, um pouco constrangido e agressivo, contou que era o paciente de antes. Haviam optado por desenvolver uma outra identidade e realizar uma nova consultar para ter informações mais objetivas e neutras. Ao criar um novo personagem e história diferente acreditava que se protegeria com mentira e negação.  

 – Esse dramático relato me fez reconhecer que esses elementos estão presentes também na nossa prática médica, as vezes com frequência maior que o esperado, e que nós médicos, temos que entender e ter empatia também com a mentira, informações, às vezes propositadamente, ditas erradas. Que uma vez identificadas, podem até ajudar no relacionamento com o paciente. O médico não pode e não deve se sentir traído ou injustiçado pelo paciente que mente para ele, não. […] Nunca tive vontade de fazer um encaminhamento psiquiátrico, era um mundo fantasioso que o ajudava a aturar melhor o sofrimento interminável e seu fim cada vez mais precoce. […]

Em um paralelo perspicaz entre a vivência deste caso na epidemia de aids, com a tragédia que vivemos atualmente pela covid, o presidente Belfort afirmou: 

 – Na aids, o pesadelo é longo e a angústia pode se arrastar por muitos anos. Na covid, o paciente quase não se despede. Doença apocalíptica em que o medo da morte e a angústia se misturam à falta de ar, à incapacidade de falar, de abraçar e de beijar. Não há tempo para ajeitar, planejar e mesmo fazer as pazes consigo mesmo e com os outros. Não há para onde correr: nem as lágrimas, nem os pacientes. Não há espaço nem mesmo para a mentira.”, finalizou emotivamente. 

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