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Suicídio: epidemia silenciosa

08/09/2021

“O homem inteligente resolve um problema; o sábio previne.” Com esta frase de Albert Einstein, o psiquiatra Flávio Kapczinski, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, deu início a sua palestra no simpósio promovido pela Academia Nacional de Medicina sobre “Prevenção ao suicídio”, no dia 2 de setembro de 2021. 

Segundo dados apresentados por Kapczinski, a cada ano, 800 mil pessoas tiram a própria vida no mundo. A mortalidade por doenças como AVC, aids, cardiopatias, leucemias tem caído de forma expressiva. Infelizmente, a curva de mortalidade em decorrência do suicídio se mantém estagnada em um patamar elevado. No ranking mundial, o Brasil ocupa o 72o lugar na mortalidade por suicídio, mas o que tem preocupado as autoridades de saúde foi o aumento de 30% no número de casos nos últimos 25 anos, e o número crescente de jovens e adultos jovens que tiram a vida.

Kapczinski esclarece que 90% das pessoas que cometem suicídio apresentam uma doença psiquiátrica. A predisposição ao suicídio foi o tema apresentado pelo médico brasileiro Gustavo Turecki, da McGill University, no Canadá. Turecki falou sobre os fatores familiares, genéticos e as experiências traumáticas na infância como abuso, violência e abandono e, como isso, pode afetar a plasticidade cerebral, ainda na infância, e levar a transtornos como de ansiedade, depressão e predisposição ao suicídio. O importante é a prevenção com o diagnóstico precoce e tratamentos, hoje, considerados eficazes. 

A sessão científica “Prevenção ao suicídio”, promovida pela Academia Nacional de Medicina, foi coordenada pelo acadêmico Antonio Egidio Nardi e pelos jovens líderes médicos da ANM, Ives Passos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Pedro Mario Pan Neto, da Unifesp, Raffael Massuda, da Universidade Federal do Paraná e Rafael Freire, da Queen’s University, do Canadá e da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Na abertura do evento, o presidente da ANM, Rubens Belfort Jr., declarou: “temos necessidade de diminuir os gaps da sociedade, entre ricos e pobres e entre os gêneros; aumentar o acesso aos serviços e saúde e sempre valorizar a vida. Esse é o papel da ANM: trazer temas relevantes para o debate.” O ex-presidente da ANM, Jorge Alberto Costa e Silva foi o comentarista da sessão e relacionou o suicídio a um campo multidisciplinar, que envolve diversas áreas como a antropologia, a biológica, a ética, a cultura, religião e, em tempo atuais, a globalização e conectividade exacerbada.

Uma epidemia silenciosa – Em sua palestrao médico Ives C. Passos (UFRGS) completou dados sobre a epidemiologia do suicídio.  “Segundo ele, nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa atual é de 10,7 suicídios por 100 mil habitantes. No Brasil, os homens cometem suicídio quatro vezes mais que as mulheres e as taxas são em torno de seis por 100 mil habitantes. Alguns autores chamam-na de a epidemia silenciosa.” Para Passos, uma forma de prevenção é instrumentalizar os médicos de atenção primária para detecção precoce dos pacientes com potencial para o suicídio. 

Na palestra “Suicídio em tempos de pandemia por covid-19”, o médico Rafael Freire fez uma revisão de epidemias passadas, como a Influenza, entre 1889 e 1893, no Reino Unido; e a SARS que ocorreu em 2003, em Hong Kong. Segundo ele, nesse período, houve um aumento de 25% nas taxas de suicídio entre as

populações afetadas. Freire conta que há uma hipótese sobre a ativação do sistema imunológico como uma repercussão na saúde mental e apontou os fatores psicossociais, ou seja, os gatilhos mais frequentes para o comportamento suicida em tempos de pandemia: dificuldade financeira; luto; uso de substâncias (lícitas e ilícitas); violência doméstica; término de relacionamentos; inatividade; acesso restrito aos serviços de saúde; isolamento social; sentimento de solidão; ansiedade relacionada à saúde; medo de contrair a covid-19. 

A epidemia silenciosa entre os jovens foi apresentada pela médica Verônica de Medeiros Alves, da Universidade Federal de Alagoas (UFAl). Ela trouxe dados do Boletim da Organização Mundial de Saúde, onde se vê que entre 19 a 29 anos o suicídio é a 4ª causa de morte entre homens e mulheres. Segundo ela, ainda existe o subregistro em muitas cidades. A médica traçou o perfil do comportamento suicida nos jovens e seus fatores de risco: depressão, ansiedade, autopercepção negativa, hostilidade, insatisfação corporal, problemas socioeconômicos, exclusão social – devido a características raciais e sexuais -, problemas familiares e amorosos, perdas de pessoas queridas, relatos de violência sexual, desemprego e problemas financeiros, bullying e uso de drogas e álcool. 

Outros fatores como a fobia social, transtornos de pânico, de estresse pós-traumático, obsessivo compulsivo, ansiedade generalizada – preocupação excessiva -, fobia, fadiga crônica e Burnout ocupacional foram outros aspectos que podem levar ao suicídio, como pontuou o médico José Alexandre Crippa, da Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto. 

 “Suicídio é um tema delicado e muito importante, principalmente, nesse momento que estamos vivendo. Precisamos falar sobre suicídio e quebrar mitos e diminuir os estigmas,” reforçou o médico Raffael Massuda, da UFPR e também do Programa de Jovens Lideranças Médicas da ANM. Ele ressalta que, quando falamos de transtornos psicóticos, analisamos especialmente, a esquizofrenia. A prevalência da esquizofrenia na população geral é em torno de 0,5% a 1% e é a 12ª doença incapacitante do país. “Pacientes com esquizofrenia podem ter uma morte precoce em decorrência ao suicídio. Esses pacientes têm nove vezes mais risco de comportamento suicida do que a população geral”.  

“Nós, prestadores de cuidados da área de saúde, como profissão nos dedicamos a diminuir o sofrimento e salvar vidas, evitando o suicídio ao tratar eficazmente a depressão, estamos avançando na redução do suicídio, mas muitas vezes suportamos o terrível infortúnio de perder um de nossos próprios pacientes por suicídio. Isso serve como um lembrete gritante das inadequações das nossas terapias quando se trata de prevenir o suicídio”, declarou a médica Fabiana Leão Lopes, da National Institute of Mental Health, Brown University, dos Estados Unidos.

Ainda participou do evento o médico italiano Mauro Carta, da Università degli Studi di Cagliari, que falou sobre programas europeus de prevenção ao suicídio entre os adolescentes.  

Para a rever a sessão, acesse:
Parte I – https://www.anm.org.br/simposio-prevencao-de-suicidio-2-de-setembro-de-2021-parte-i/

Parte II – https://www.anm.org.br/simposio-prevencao-de-suicidio-2-de-setembro-de-2021-parte-ii/

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