Nesta quinta-feira (5), na Academia Nacional de Medicina, a primeira sessão ordinária do 197º ano acadêmico foi marcada por um simpósio dedicado aos avanços na visualização de sistemas biológicos. O encontro reuniu especialistas em bioimagem, microscopia e biologia estrutural para discutir como novas tecnologias estão ampliando a compreensão de processos celulares, doenças e possíveis terapias.

A sessão foi aberta pelo presidente da ANM, Acadêmico Antonio Egidio Nardi, que deu início às atividades científicas do ano. Em seguida, foi apresentado o tema do encontro, destacando a proposta da instituição de promover, ao longo de 2026, uma série de sessões organizadas pela Secção de Ciências Aplicadas voltadas a metodologias científicas relevantes para diferentes áreas da medicina.
Na introdução geral ao tema, o Acadêmico Wanderley de Souza ressaltou que a iniciativa busca aproximar o conhecimento científico básico de suas aplicações na prática médica. “A microscopia óptica vive hoje uma verdadeira revolução. Técnicas modernas permitem visualizar estruturas em escala nanométrica, algo impensável há poucas décadas”, afirmou.

A primeira apresentação foi conduzida pelo professor Manuel Costa, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele explicou os princípios da microscopia confocal, uma técnica que permite observar células e tecidos com maior nitidez. Segundo o pesquisador, a evolução da microscopia sempre esteve ligada a dois desafios principais: melhorar a resolução das imagens e aumentar o contraste entre as estruturas observadas. Nesse contexto, o uso da fluorescência tornou-se fundamental, pois permite marcar moléculas específicas e acompanhá-las com grande precisão.

O microscópio confocal, patenteado em 1957 pelo cientista Marvin Minsky, representou um avanço importante para a análise de tecidos biológicos mais espessos. A técnica utiliza um sistema de varredura ponto a ponto e um pequeno diafragma, chamado pinhole, que bloqueia a luz fora de foco. “Isso possibilita observar estruturas tridimensionais com muito mais clareza”, explicou Costa, comparando a formação da imagem ao pontilhismo artístico, em que a figura final surge da soma de inúmeros pontos.
Durante a apresentação, o pesquisador também mostrou exemplos de estudos realizados em seu laboratório sobre diferenciação muscular, utilizando culturas celulares e modelos experimentais como o peixe-zebra. Os embriões transparentes desse organismo permitem acompanhar processos biológicos em tempo real. “Esses modelos ajudam a entender como proteínas se organizam durante o desenvolvimento dos tecidos”, destacou.
Na sequência, o Acadêmico Jerson Lima abordou como técnicas modernas de bioimagem e biologia estrutural têm contribuído para compreender doenças relacionadas ao mau dobramento de proteínas, como Alzheimer e Parkinson. Ele explicou que avanços recentes em métodos como criomicroscopia eletrônica e ferramentas baseadas em inteligência artificial estão transformando o estudo das proteínas. “Compreender a estrutura dessas moléculas é fundamental para entender as doenças e desenvolver novas estratégias de tratamento”, afirmou.

O Acadêmico também apresentou estudos de seu grupo sobre a proteína p53, conhecida como “guardião do genoma”. Quando sofre mutações, ela aparece em cerca de metade dos tumores humanos e pode formar agregados semelhantes aos observados em doenças neurodegenerativas. “Esses agregados alteram profundamente o funcionamento celular e podem contribuir para o desenvolvimento do câncer”, explicou.
Encerrando as apresentações, o professor Antonio Carlos Campos de Carvalho mostrou pesquisas que combinam diferentes técnicas de imagem, como ressonância magnética, PET e bioluminescência, para acompanhar processos biológicos em modelos animais. Um dos estudos analisou a evolução da doença de Chagas e os efeitos de terapias experimentais com células-tronco. “Cada método de imagem tem vantagens e limitações. Quando combinados, eles permitem compreender fenômenos biológicos complexos de forma muito mais completa”, destacou.

Durante o debate final, os participantes discutiram também aplicações clínicas dessas tecnologias, como o uso de métodos de imagem para estudar doenças priônicas e tumores neuroendócrinos. Outro tema abordado foi o avanço da medicina de precisão, que utiliza análises genéticas e moleculares para orientar tratamentos personalizados.
Ao encerrar a sessão, o Presidente Nardi agradeceu aos palestrantes e destacou a importância da integração entre ciência básica e prática clínica. Segundo ele, os avanços na visualização de estruturas microscópicas estão abrindo novos caminhos para a compreensão das doenças e para o desenvolvimento de terapias mais eficazes.