Como aproximar os avanços da pesquisa científica da realidade dos pacientes com câncer? Essa foi a questão central da sessão “Oncologia Translacional: Da Descoberta ao Paciente”, realizada pela Academia Nacional de Medicina (ANM), nesta quinta-feira (01). Organizado pelos acadêmicos Wanderley de Souza, Daniel Tabak e Jerson Lima Silva, o encontro reuniu especialistas para discutir novas descobertas, perspectivas terapêuticas e os desafios de transformar o conhecimento científico em benefícios concretos para a população.

A programação foi aberta com a palestra “Panorama do Câncer no Brasil”, de Luiz Felipe Ribeiro Pinto, chefe da Divisão de Pesquisa Básica e Experimental do Instituto Nacional de Câncer (INCA). O pesquisador destacou a estimativa de 781 mil novos casos anuais no país e alertou para a necessidade de aprimorar os registros epidemiológicos. “Sem dados confiáveis, não é possível estabelecer uma política realista de enfrentamento ao câncer”, afirmou. Também abordou os desafios da prevenção e do diagnóstico precoce, além das perspectivas do Projeto Genomas Câncer Brasileiro.
Na sequência, o Acadêmico Jerson Lima Silva apresentou pesquisas sobre a agregação da proteína p53, presente em mais da metade dos tumores humanos, e seu potencial como alvo terapêutico. Os estudos investigam moléculas capazes de impedir esse processo e abrir novas possibilidades para o desenvolvimento de tratamentos contra o câncer.

A sessão de Recentes Progressos trouxe ainda a professora Tuane C. R. Vieira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que apresentou avanços no diagnóstico das doenças priônicas. Entre os destaques, esteve o teste RT-QuIC, capaz de detectar a forma patológica da proteína priônica no líquor e contribuir para o diagnóstico em vida.
No segundo bloco, dedicado à tradução clínica e à prática, o Acadêmico Daniel Tabak discutiu a influência do microbioma intestinal na resposta à imunoterapia. Ele destacou evidências de que a composição das bactérias intestinais pode interferir na eficácia do tratamento e alertou para o uso indiscriminado de probióticos, que pode comprometer os resultados terapêuticos.

O professor Eduardo Magalhães Rego, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) e do Instituto D’Or, abordou a hematopoese clonal, condição associada ao envelhecimento e ao aumento do risco de neoplasias hematológicas e eventos cardiovasculares. Sua apresentação destacou pesquisas em andamento para compreender os mecanismos da doença e investigar possíveis intervenções.
Encerrando as apresentações, o Acadêmico Paulo Hoff discutiu os avanços da oncologia de precisão, incluindo terapias-alvo, imunoterapia, terapias celulares e biópsia líquida. O especialista ressaltou, porém, que a inovação precisa ser acompanhada de estratégias para ampliar o acesso aos tratamentos. A incorporação de novos medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o alto custo de terapias avançadas estiveram entre os principais desafios debatidos.

Na discussão final, a Acadêmica Fernanda Moll e o Acadêmico Maurício Magalhães participaram dos debates sobre o fortalecimento da produção científica nacional e a ampliação do acesso às novas tecnologias. Os participantes destacaram a importância do financiamento à pesquisa, do desenvolvimento de terapias no Brasil e da aproximação entre universidades, instituições de pesquisa e setor produtivo.
A sessão foi encerrada pelo vice-Presidente da ANM, Acadêmico José Galvão-Alves, que conduziu os trabalhos na ausência do Presidente, Acadêmico Antonio Egidio Nardi. O encontro reforçou a importância da integração entre pesquisa básica, prática clínica e políticas de saúde para transformar descobertas científicas em benefícios concretos para os pacientes.
