A pediatra e neonatologista Maria Elizabeth Lopes Moreira tomou posse como Acadêmica Titular da Academia Nacional de Medicina (ANM) em sessão solene realizada nesta terça-feira (20). Ela passa a integrar a Secção de Medicina, ocupando a Cadeira nº 17, cujo patrono é o Acadêmico Carlos Pinto Seidl. A cadeira foi anteriormente ocupada pelo Acadêmico Omar da Rosa Santos.

A sessão foi aberta pelo Presidente da ANM, Acadêmico Antonio Egidio Nardi. Compuseram a mesa os ex-presidentes Pietro Novellino, Francisco Sampaio, Rubens Belfort e Eliete Bouskela, além do Secretário-Geral, Acadêmico Mauricio Magalhães Costa. Também estiveram presentes a vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz, Alda Maria da Cruz, representando o presidente da instituição, Mário Moreira; o diretor do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Antonio Flávio Meireles; o presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Edson Ferreira Liberal; a presidente da Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro, Ana Thereza; e a diretora médica da Rede Santa Catarina da Casa de Saúde São José, Camila Sandberg.

A Comissão de Honra, responsável por conduzir a nova Acadêmica ao recinto, foi composta pelos Acadêmicos Carlos Giesta, Rubens Belfort Jr., Eliete Bouskela, Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro, Walter Araújo Zin e Maurício Magalhães Costa. Após a cerimônia, o grupo acompanhou a Acadêmica ao Salão Nobre para os cumprimentos.

Depois da execução do Hino Nacional, Dra. Maria Elisabeth prestou o juramento acadêmico, comprometendo-se a respeitar o estatuto e as decisões da Academia, frequentar as sessões, colaborar em suas atividades e “pugnar pelo engrandecimento da medicina brasileira”. Em seguida, o Presidente Nardi lhe impôs a medalha e o colar acadêmicos.

Pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Maria Elisabeth soma uma trajetória notável na pesquisa e na assistência em saúde materno-infantil, com contribuições relevantes em neonatologia, prematuridade, crescimento e desenvolvimento infantil e pesquisa clínica perinatal.

Formada em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 1983, doutorou-se na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Coordena desde 2006 a Unidade de Pesquisa Clínica do IFF/Fiocruz, por ela criada. Orientou 35 dissertações de mestrado, 31 teses de doutorado e três pós-doutorados, além de publicar três livros e 38 capítulos. Seus estudos sobre a síndrome congênita do vírus Zika tiveram projeção mundial. Durante a pandemia de Covid-19, publicou trabalhos sobre os impactos da infecção por SARS-CoV-2 em fetos e recém-nascidos. Em 2025, recebeu da própria ANM o Prêmio Fernandes Figueira.
Com sua posse, torna-se a 11ª mulher a ingressar como Acadêmica na história da Academia Nacional de Medicina, ampliando um legado de presença feminina na instituição.
Paraninfo da nova Acadêmica, Professor Paulo Marchiori Buss, ex-presidente da Fiocruz, fez a saudação em nome da ANM. Contou que conhece Maria Elisabeth há mais de 30 anos, desde o Instituto Fernandes Figueira, e a descreveu como “uma quase lenda entre as mães, as crianças e os colegas”.

O Acadêmico destacou quatro dimensões de sua contribuição: a clínica, a pesquisadora, a educadora e a mulher e médica humanista. Lembrou que ela foi uma das principais responsáveis por construir no IFF um dos mais importantes serviços de perinatologia do país e que desenhou e avaliou protocolos de atenção a recém-nascidos de alto risco, difundidos em berçários no Brasil e no exterior. Recordou também que a atenção da médica se dirigia tanto aos bebês quanto às famílias “do outro lado da vidraça”.
Ao citar o artigo “A criança é o pai do homem”, de autoria da nova Acadêmica, Professor Paulo Buss afirmou que “a saúde perinatal do recém-nascido, da criança e do adolescente é o eixo estruturante do futuro da sociedade”. Encerrou a saudação com passagens do memorial apresentado à Academia: “Cuidar da mulher, da saúde da criança é cuidar do destino das sociedades” e “a medicina, em sua essência, é ciência e arte, técnica e sensibilidade, conhecimento e compaixão”.
Em seu discurso, Maria Elisabeth afirmou que a noite representava o reconhecimento de uma construção coletiva: “Se há uma certeza que essa noite me traz é: ninguém chega sozinho”. Agradeceu ao Presidente Nardi, ao presidente da Seção de Medicina, Acadêmico Rui Maciel, aos acadêmicos que a apoiaram e ao paraninfo, Acadêmico Paulo Buss, com quem compartilha “a pediatria, a saúde pública e a Fundação Oswaldo Cruz”.

Ela homenageou os antecessores da Cadeira nº 17, Carlos Pinto Seidl, Miguel Osório de Almeida, Fioravante Alonso Pinheiro e Omar da Rosa Santos, e disse ver na sucessão “quase um itinerário da própria medicina: saúde pública, ciência clínica e ensino”. Definiu-se como “uma médica que pesquisa”: “Foram principalmente os recém-nascidos que me ensinaram a perguntar”. Para ela, “cuidar do início da vida é também cuidar do futuro”.
Sobre a presença feminina na Academia, afirmou: “Esses números não precisam de adjetivos. Não os menciono como lamento, menciono-os como responsabilidade”. E acrescentou o desejo de que “a presença de uma mulher nessa tribuna não precise mais ser acompanhada de nenhuma explicação numérica”.
Agradeceu aos pais, a mãe, Rita, professora de português e gestora de escolas públicas, e o pai, alfaiate, aos mestres José Maria de Andrade Lopes e Emanuel de Carvalho, e ao orientador de doutorado, Marco Antônio Barbieri. Encerrou dizendo que o passado “oferece memória”, o presente “impõe responsabilidade” e o futuro “pede compromisso”, e desejando “colocar o conhecimento científico a serviço da vida e, de maneira muito especial, a serviço da vida que está apenas começando”.
Ao encerrar a sessão, o Presidente Antonio Egidio Nardi deu as boas-vindas à nova Acadêmica. Afirmou que a chegada de um novo membro “representa sempre um momento de renovação, de reconhecimento do mérito científico e de reafirmação dos valores que sustentam nossa instituição há quase dois séculos“.

Destacou também a parceria científica com Maria Elisabeth no estudo APPLE, que investiga adipocinas no plasma e no leite de nutrizes no primeiro ano pós-parto e sua associação com sintomas depressivos e com o desenvolvimento cognitivo e motor do lactante. A colaboração resultou em duas publicações internacionais em 2024, nas revistas PLOS One e Nutrients. Para ele, o projeto é “um excelente exemplo da importância da interdisciplinaridade na medicina contemporânea”.
Sobre a neonatologia, disse que “a tecnologia pode sustentar a vida de um recém-nascido extremamente prematuro, mas é a sensibilidade humana que permite compreender plenamente o significado desse cuidado para a criança e para a sua família”. Também ressaltou que o reconhecimento das mulheres na ciência “não é apenas uma questão de justiça histórica, mas uma necessidade para o fortalecimento de nossas instituições”, e lembrou a proximidade do bicentenário da ANM.
“É uma satisfação especial poder dizer que uma colega de pesquisa agora passa a ser também uma colega de academia”, concluiu.
Confira a cerimônia completa aqui.