Academias de Medicina e de Ciências traçam escolhas e estratégias da saúde brasileira até 2050

22/10/2026

A Academia Nacional de Medicina (ANM) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) realizaram nesta quinta-feira (22), na sede da ANM, a sessão “Planejamento Estratégico de Saúde para o Brasil 2050: Escolhas e Estratégias”. O evento reuniu pesquisadores, gestores e ex-ministros em quatro blocos de debate. A organização foi dos Acadêmicos Rubens Belfort, José Eduardo Krieger, Flávio Kapczinski, Maurício Magalhães Costa e Rui Maciel.

“Um compromisso concreto”

Na abertura, o Presidente da ANM, Antonio Egidio Nardi, afirmou que pensar 2050 exige agir agora: “Planejar a saúde para 2050 não é um exercício de futurologia, é um compromisso concreto com a responsabilidade intergeracional”. Ele destacou a saúde mental como prioridade. “Não será possível construir um sistema de saúde adequado para 2050 sem colocar a saúde mental no centro do planejamento estratégico nacional”, disse.

A Presidente da ABC, Helena Nader, defendeu o fortalecimento do SUS e questionou: “Como vamos fortalecê-lo e não privatizá-lo? Como torná-lo sustentável e não privatizá-lo?”. Ela resumiu o espírito do encontro: “Planejar a saúde para 2050 não é adivinhar o futuro, é assumir a responsabilidade de construir”.

Um depoimento do Acadêmico Eduardo Moacyr Krieger foi lido por Belfort. Aos 98 anos, Krieger não pôde comparecer. Ele escreveu: “Não basta perguntar quanto devemos gastar. É necessário perguntar onde devemos gastar, quais prioridades devemos estabelecer e quais resultados esperamos obter”.

Obesidade, desigualdade e clima entre as maiores ameaças

O professor Cesar Victora (ABC) apresentou as 17 ameaças globais à saúde identificadas por uma comissão da The Lancet. As três de maior carga evitável são obesidade, baixa escolaridade e desigualdade de renda. Segundo ele, dados da coorte de Pelotas mostram a obesidade entre as mulheres mais pobres subindo de cerca de 18% para quase 40% entre as coortes de 2015 e 2026. Victora alertou que “qualquer planejamento estratégico tem que levar em conta essa heterogeneidade” do país.

Já o professor Mauricio Barreto (ABC), coordenador do Cidacs, na Bahia, mostrou que a expectativa de vida do brasileiro subiu cerca de 5,5 anos em duas décadas e que a mortalidade infantil caiu de 28 para cerca de 12 por mil nascidos vivos. Pesquisas com uma coorte de mais de 100 milhões de brasileiros indicam efeitos do Bolsa Família sobre cerca de 16 desfechos de saúde. Entre eles estão nutrição infantil, mortalidade materna e hanseníase. Barreto também citou estudo segundo o qual cerca de metade das mortes associadas à temperatura no Brasil nos últimos 20 anos tem relação com as mudanças climáticas.

Reforma sanitária de “segunda geração”

O Acadêmico José Gomes Temporão apresentou proposta do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz. Segundo ele, em 2029 o Brasil terá mais idosos do que menores de 15 anos. “O Brasil não envelhece nem adoece de maneira homogênea”, afirmou. Entre as medidas, citou elevar a participação do gasto público no gasto total em saúde para ao menos 60%, hoje abaixo de 50%. Defendeu ainda: “Nós temos que aumentar a capacidade do Estado de regulação pública do complexo privado da saúde”.

O Professor Gonzalo Vecina defendeu regiões de saúde, financiamento por população e um critério único de incorporação de tecnologias. “A incorporação de tecnologia não pode ser para rico e para pobre”, disse.

Inovação, produção nacional e gestão

Para o Acadêmico Giovanni Cerri (ANM), a interoperabilidade de dados pode reduzir em 15% os gastos globais em saúde. Ele avaliou que “o modelo atual é insustentável” e que “precisamos reinventar o modelo através da inovação”. Manoel Barral Netto (ABC), pesquisador da Fiocruz Bahia, defendeu priorizar problemas por carga de doença e possibilidade de intervenção. Lembrou que muitas mortes por dengue decorrem de falhas de execução: “É um problema de implementação, não é um problema de ciência”. Também destacou o complexo econômico-industrial da saúde como questão de soberania.

O Acadêmico Paulo Buss alertou para o enfraquecimento do multilateralismo e afirmou que “o Brasil precisa manter o seu apoio ao multilateralismo”. Propôs um grupo permanente das duas academias para acompanhar as recomendações e alinhá-las ao ciclo político, sem “vender terreno na Lua”.

Professor Raul Cutait, também Membro Titular da ANM disse que “saímos da fase da caridade para entrar numa fase de direito”, mas apontou que cerca de 30% dos gastos do SUS são desperdício ou desvio. Também afirmou que 40% dos médicos brasileiros não passaram por residência. O Acadêmico José Luiz Gomes do Amaral, listou oito estratégias, entre elas rever o orçamento, ampliar a regionalização e qualificar os profissionais. O Professor Ronaldo Damião (ANM), relatou o uso de inteligência artificial para reduzir o absenteísmo, hoje em torno de 14%, e a criação de uma UPA acadêmica. Ele defendeu “um SUS preditivo, preventivo, integrado, digital e orientado a resultados”.

Formação médica

A ex-Presidente da Capes Denise Pires de Carvalho (ABC) disse que a pós-graduação na área médica está “estagnada desde 2021”. Anunciou uma Agenda Nacional da Capes, com editais induzidos em áreas estratégicas da saúde. No debate sobre formação, foram discutidos o crescimento do número de escolas médicas, hoje próximo de 500, e a prova de proficiência. “Formação se avalia e proficiência se comprova”, afirmou o Acadêmico Marcelo Morales.

O encontro reforçou a importância da atuação conjunta entre as academias na construção de propostas para o futuro da saúde brasileira. As discussões apontaram para a necessidade de transformar diagnósticos e evidências científicas em políticas públicas, com planejamento de longo prazo, fortalecimento do SUS, investimento em ciência e inovação e compromisso com a redução das desigualdades. O desafio, como ressaltado pelos participantes, é fazer das escolhas de hoje o ponto de partida para uma saúde mais sustentável, integrada e acessível às próximas gerações.

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