Aos 80, os sonhos não envelhecem: Academia Nacional de Medicina reúne octogenários para falar de perdas e ganhos da longevidade

22/10/2026

Entre memórias, humor e lições de vida, a Academia Nacional de Medicina (ANM) dedicou uma sessão especial, nesta quinta-feira (22), aos acadêmicos com 80 anos ou mais. Organizado pelos Acadêmicos Rubens Belfort Jr. e José de Jesus Camargo, em parceria com o Instituto Ricardo Cruz, o encontro Octogenários: Sonhos, Perdas e Ganhos teve falas de oito minutos de cada convidado, entre a tarde e a noite, na sede da instituição.

Ao abrir os trabalhos, o Presidente da ANM, Acadêmico Antonio Egidio Nardi, definiu o tom: a sessão celebra “algo ainda mais precioso, a vida, o tempo, a memória e as pessoas que deram sentido a essa história”. Segundo o Professor Rubens Belfort Jr., mais de 30 dos acadêmicos da casa já passaram dos 80 anos, e o número tende a crescer.

Uma geração pioneira

O Acadêmico Belfort lembrou que a sociedade ainda não sabe lidar com a longevidade. “Nós somos parte dessa primeira geração e estamos aprendendo junto com a sociedade o que fazer”, afirmou. O Honorário Nacional Alexandre Kalache, chamou o fenômeno de “Revolução da Longevidade” e de “a maior conquista social dos últimos cem anos”, ao lembrar que a expectativa de vida de sua geração era de cerca de 45 anos, contra 78 hoje. Kalache também cobrou mudanças na formação médica: as escolas, disse, não ensinam sobre envelhecimento, embora os futuros médicos vão atender cada vez mais idosos.

Acadêmico Rubens Belfort Jr.

As perdas: amigos, solidão e tempo

A perda mais citada não foi física, mas afetiva. “Nós não vamos ter tempo mais de fazer novos amigos. Portanto, essas conexões têm que começar muito antes dos oitenta”, alertou Professor Belfort. Já o Acadêmico Milton Ary Meier, que completou 94 anos, foi direto: “Eu não vou morrer de doença. Eu não vou morrer de acidente. Eu vou morrer de saudade pela vida que eu tive.” O Professor Camargo, pioneiro dos transplantes de pulmão, admitiu uma dor: “Faltei-lhes com presença e, com isso, hoje sei bem, perdemos todos”, disse sobre os filhos.

O Honorário Nacional Miguel Srougi, que fez 80 anos na véspera e ficou viúvo há pouco tempo, falou da solidão como problema de saúde pública: mais de um quarto da população brasileira vive isolada, segundo ele. Citando estudos, defendeu convívio social, musculação (associada a cerca de 40% menos risco de morte em um dos trabalhos apresentados) e sono regular. “Nós temos a sabedoria e a experiência”, disse, e é isso que deve ser compartilhado com os mais jovens.

Ganhos e sonhos que continuam

Professor Camargo recordou o primeiro transplante de pulmão da América Latina, realizado em 16 de maio de 1989, e disse querer escrever um romance. Pediu, ao final, “o privilégio de morrer de frente para o mar”. O Acadêmico Natalino Salgado Filho, ex-reitor da Universidade Federal do Maranhão, que realizou a primeira hemodiálise do estado em 1978, deixou um conselho aos jovens: “Não confunda o tempo que passa com o tempo que vale. Cuida do paciente como cuidaria de alguém a quem ama”. Sobre o legado, resumiu: “não de bronze, mas um legado de gente”.

O Membro Titular Henrique Murad, que sobreviveu a uma dissecção aguda de aorta, contou que seu sogro, aos 94 anos, dizia ter um único projeto para o ano seguinte: viver. “Eu diria que meu grande projeto de vida é viver”, completou. O Benemérito Pedro Grossi Junior, que se apresentou como “doente” e não como médico, afirmou: “Para mim, viver é continuar interessado“. Já o psiquiatra Jorge Alberto Costa e Silva, por videoconferência, resumiu o balanço: “Tem mais ganhos do que perda. Muito mais”.

Humor, memória e protesto

A sessão também teve leveza. O Acadêmico Jayme Brandão de Marsillac, 87 anos, disse sentir-se “mais antigo do que velho”. Ex-Presidente da ANM, Acadêmico Pietro Novellino, repetiu a máxima de que velho é “aquele que tem sempre dez anos mais do que eu”. Membro Titular da ANM, o Acadêmico Carlos Alberto Basílio de Oliveira homenageou mestres da antiga Escola de Medicina e Cirurgia e lembrou a frase do Acadêmico Aloysio de Paula: “A idade amadurece os bons e apodrece os maus.” Em vídeo gravado da Suíça, o Membro Titular, Carlos Alberto de Barros Franco, comparou a vida às pistas de esqui (preta, azul e verde) e concluiu: “Nunca devemos sair da pista”.

A Acadêmica Talita Romero Franco lembrou que hoje são 12 mulheres na ANM e protestou contra a exigência de paletó e gravata no convite: “Eu até trouxe a gravata, mas não me senti bem com ela”.

Ciência e saúde pública

No bloco “Recentes Progressos”, o secretário-geral da ANM, Maurício Magalhães, apresentou o tema Epigenética e Longevidade, resumindo a ideia de que “o genoma nos dá o roteiro biológico e o epigenoma registra como a vida interage com esse roteiro”. Defendeu uma “prevenção de precisão”, com identificação de vulnerabilidades biológicas anos antes da doença. Professor Kalache, por sua vez, alertou para o risco de perder conquistas e defendeu o Sistema Único de Saúde (SUS), do qual depende a maioria dos brasileiros com mais de 60 anos.

Encerramento

A presidente do Instituto Ricardo Cruz, a jornalista e escritora Denise Loreto, destacou que a ciência acrescentou anos à vida e que as humanidades ajudam a “acrescentar sentido a esses anos”. Presidente Nardi encerrou lembrando que o tempo “é feito de encontros, de amizades, de descobertas, de escolhas difíceis, de alegrias inesperadas, de perdas inevitáveis e de sonhos que, felizmente, nunca envelhecem”. O Acadêmico Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro sugeriu transformar a sessão em número especial dos Anais da ANM.

Mais do que celebrar a longevidade, a sessão destacou o valor das experiências acumuladas ao longo da vida e da possibilidade de continuar fazendo planos, aprendendo e compartilhando histórias. Entre perdas, conquistas e novos projetos, os depoimentos mostraram que envelhecer também é manter vivos os vínculos, a curiosidade e os sonhos.

Assista a sessão completa clicando aqui e aqui.

Para melhorar sua experiência de navegação, utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes. Ao continuar, você concorda com a nossa política de privacidade.