Academia Nacional de Medicina empossa novos Jovens Líderes Médicos e aprofunda debate sobre o ensino médico no país

26/03/2026

A Academia Nacional de Medicina realizou, nesta quinta-feira (26), uma sessão marcada por dois eixos centrais para o futuro da saúde no Brasil: a posse do Programa Jovens Lideranças Médicas (2026–2031) e um debate aprofundado sobre a crise no ensino médico no país. Em comum, os dois momentos evidenciaram a necessidade de transformação, inovação e maior responsabilidade institucional diante de um cenário cada vez mais complexo.

Jovens lideranças médicas assumem com foco em inovação e acesso à saúde

A cerimônia de posse do Programa Jovens Lideranças Médicas reuniu especialistas e novos integrantes em torno dos desafios contemporâneos da formação e da atuação profissional. Na abertura, a mensagem foi direta: os novos membros representam mais do que renovação simbólica.

“É motivo de entusiasmo e esperança”, destacou o Presidente Acadêmico Antonio Egidio Nardi ao afirmar que o grupo carrega “a energia renovadora que mantém viva a tradição” da instituição. A expectativa é que essa “vitalidade intelectual” contribua para “pensar o futuro” da medicina em um cenário de rápidas transformações.

Presidente Acadêmico Antonio Egidio Nardi discursa durante a posse dos novos membros do PJLM

O palestrante convidado, Prof. Rodrigo Vilar, ampliou o debate ao classificar o sistema de saúde como um ecossistema fragmentado, com desafios estruturais relevantes. “No final do dia, nós estamos aqui para brigar por um melhor acesso ao sistema de saúde público e privado”, afirmou.

Segundo ele, três entraves centrais precisam ser enfrentados: a fragmentação do setor, marcada por “desconfianças crescentes” entre operadoras, hospitais e médicos, o subfinanciamento aliado à judicialização, e o avanço acelerado das tecnologias. “Ninguém pode achar que a inteligência artificial não fará parte da nossa vida”, alertou.

Diante desse cenário, ele defendeu uma mudança no perfil do médico, que deve ir além da formação técnica. “É preciso qualificar os dissensos”, disse, destacando a importância da articulação e do diálogo para a construção de soluções coletivas.

O crescimento do empreendedorismo na saúde também foi apontado como tendência, apesar das lacunas na formação tradicional. “A faculdade não ensina o futuro médico a construir negócio”, afirmou. Nesse contexto, Rodrigo Vilar ressaltou o papel das comunidades como novos espaços de aprendizado: “O mundo atual é o mundo das comunidades, tanto para negócios como para aprendizado”.

A sessão reforçou ainda o papel da Academia como ponte entre gerações, promovendo um ambiente “onde tradição e futuro caminham juntos”. Criado em 2014, o Programa de Jovens Lideranças Médicas já reuniu dezenas de participantes e oferece mentoria, inserção acadêmica e oportunidades de articulação institucional.

Ao final, a mensagem aos novos integrantes foi de responsabilidade e protagonismo, com atuação pautada por ciência, ética e compromisso com o conhecimento e serviço à sociedade.

Ensino médico no Brasil: expansão desordenada e urgência por regulação

Dando continuidade à sessão plenária, o tema “Ensino Médico no Brasil: Formação, Evidências e Responsabilidade Institucional” trouxe um diagnóstico contundente sobre a formação profissional no país. O debate foi organizado pelo presidente Antonio Egidio Nardi e pelo acadêmico Marcelo Morales.

Especialistas classificaram como crítico o cenário atual, marcado pela expansão acelerada e desestruturada das escolas médicas. O diretor do Conselho Federal de Medicina, Estevam Rivello, destacou que o Brasil já ultrapassa 450 cursos de medicina, cerca de 70% deles privados. “Há um número expressivo de faculdades e, com isso, um expoente número de egressos”, afirmou.

Segundo ele, o crescimento não foi acompanhado por infraestrutura adequada. “A faculdade é implantada, mas não é implantado hospital-escola, não é implantado ambulatório”, disse, ao apontar falhas estruturais que comprometem a formação.

O impacto da expansão se reflete no aumento expressivo de profissionais: cerca de 49 mil médicos se formam por ano no país, com projeções que apontam para até um milhão de médicos na próxima década. Para Rivello, o problema não é apenas quantitativo, mas a ausência de controle de qualidade.

Na mesma linha, o diretor científico da Associação Médica Brasileira, José Eduardo Dolci, classificou o momento como de “angústia na medicina brasileira”. “Isso não foi acompanhado de qualidade”, disse, ao destacar o desequilíbrio entre crescimento e preparo profissional.

Diretor Científico da Associação Médica Brasileira, Dr. José Eduardo Dolci

O Senador Astronauta Marcos Pontes, autor do Projeto de Lei nº 2.294/2024, que propõe a criação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), destacou preocupações relacionadas à formação médica e à distribuição de profissionais no país.

Segundo ele, há uma concentração significativa de médicos em um número reduzido de municípios, cerca de 48 cidades reuniriam aproximadamente 60% desses profissionais no Brasil, cenário que estaria associado à falta de infraestrutura e condições adequadas de trabalho em regiões menores. Ele também apontou fragilidades na qualidade do ensino médico, ressaltando a necessidade de mecanismos que garantam a formação adequada dos profissionais que ingressam no mercado.

Outro problema relevante é o descompasso entre graduação e especialização. “Nós temos praticamente o dobro do número de egressos em relação ao número de vagas de residência médica”, afirmou o especialista, cenário que amplia o número de profissionais sem formação especializada.

O deputado Zacharias Calil defendeu a medida como forma de garantir a segurança dos pacientes: “Não se trata de criar barreiras, mas de assegurar que todo médico esteja preparado”.

A comparação com modelos internacionais reforçou a necessidade de mudanças. Em países como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, o exercício da medicina depende da aprovação em exames rigorosos de competência.

Ao final, consolidou-se um consenso: o Brasil enfrenta um problema estrutural na formação médica. A expansão desordenada, sem critérios rigorosos de qualidade, compromete a qualificação profissional e a segurança da população. Medidas como o fortalecimento da regulação, o aprimoramento dos mecanismos de avaliação e a implementação de um exame de proficiência foram apontadas como urgentes para reequilibrar o sistema.

Confira a sessão completa clicando aqui e aqui.

Leia também o documento oficial emitido pela Academia Nacional de Medicina em apoio ao Exame de Nacional de Proficiência Médica (Profimed) aqui.

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