A Academia Nacional de Medicina realizou, nesta quinta-feira (19), uma sessão especial em homenagem ao Dia da Mulher, dedicada à discussão dos desafios da saúde feminina no século XXI e à temática da “cesariana moderna”. O encontro – organizado pelos Acadêmicos Carlos Giesta, Jorge de Rezende Filho, Maurício Magalhães, Marcelo Zugaib, Henrique Salvador e Waldemar Naves do Amaral – reuniu especialistas para uma análise que integrou aspectos clínicos, sociais e éticos da assistência à mulher.

Na abertura, destacou-se que pensar a saúde da mulher é pensar o futuro da sociedade. Ao evocar a célebre frase de Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”, foi ressaltado que a condição feminina resulta de uma complexa interação entre fatores biológicos, históricos e sociais. Nesse contexto, afirmou-se que “a saúde feminina não é apenas um campo específico da medicina, ela representa um eixo estruturante do desenvolvimento social, econômico e cultural das sociedades”.
A conferência da Professora Maria Celeste Osório Wender aprofundou essa análise ao abordar as transformações no papel da mulher contemporânea. Segundo ela, “nunca houve tantas mulheres vivendo tanto tempo após a fase reprodutiva”, o que impõe à medicina uma abordagem mais ampla, que acompanhe todas as fases da vida.

Ao tratar da fertilidade, ela destacou a queda das taxas de fecundidade e o adiamento da maternidade, alertando para os limites biológicos: “o tempo é cruel”, afirmou, ao enfatizar a importância do aconselhamento reprodutivo. A Professora também chamou atenção para a necessidade de ampliar ações preventivas e políticas públicas, além de discutir a menopausa como uma fase ativa da vida: “a menopausa não é o fim de um período, mas metade da vida dessa mulher”.
Ela também trouxe alertas importantes sobre práticas médicas não regulamentadas, como os chamados implantes hormonais manipulados. Segundo a especialista, “a segurança e a eficácia só são percebidas em produtos regulamentados”, destacando os riscos associados ao uso indiscriminado dessas terapias.
Outro eixo central foi a discussão sobre a violência contra a mulher, compreendida em suas múltiplas dimensões. Em tom enfático, Professora Maria Celeste afirmou que “todas elas estão diariamente rondando as nossas mulheres no nosso país”, ao abordar desde a violência física até a psicológica e estrutural. Nesse contexto, destacou que a persistência de doenças evitáveis e da mortalidade materna configura uma forma de negligência sistêmica: “quando um câncer prevenível continua existindo, a omissão se torna uma violência”.
Ao final, ela sintetizou os avanços e desafios da área ao afirmar que “a maior revolução na saúde feminina não foi apenas permitir que as mulheres tenham filhos quando desejarem, mas permitir que vivam décadas além da reprodução com saúde, autonomia e dignidade”.
Na segunda parte da sessão, o debate voltou-se à obstetrícia, com foco na cesariana moderna e suas implicações clínicas, éticas e sociais. A apresentação do Professor Antonio Braga trouxe uma análise histórica da operação cesariana, destacando sua evolução ao longo do tempo. Ao contrastar práticas antigas com as atuais, lembrou que “àqueles idos, a cesariana era feita com uma incisão mediana infraumbilical”, evidenciando os avanços técnicos da cirurgia.

Ao discutir suas indicações, reforçou o papel essencial do procedimento na prática médica: “deve ser feito em todas as distocias e acidentes que a indicam, e nada a impede”. No entanto, a análise também incorporou uma crítica ao crescimento progressivo de sua realização, sintetizado na afirmação de que “a incidência da cesariana sobe, por vezes estaciona, jamais diminui”.
A discussão avançou para a autonomia da mulher na escolha da via de parto. Nesse sentido, destacou-se que “não existe a melhor via de parto”, mas sim a necessidade de garantir uma maternidade segura, baseada em informação qualificada e decisão compartilhada.
O Acadêmico Marcelo Zugaib trouxe uma abordagem crítica sobre a prática obstétrica contemporânea, especialmente ao tratar da chamada violência obstétrica. Em sua fala, afirmou: “eu adoto o termo violência obstétrica”, destacando que se trata de uma realidade presente no cotidiano da especialidade.
Ao abordar a relação médico-paciente, fez uma crítica direta à indução indevida de condutas: “não tem nada mais gritante do que o dedo do médico obstetra para conduzir uma paciente a ter um parto diferente do que ela gostaria”. Também reforçou a importância da autonomia, ao afirmar que “sem dúvida nenhuma, é uma decisão do casal”, desde que baseada na segurança.
O debate evidenciou ainda as desigualdades estruturais no acesso à assistência obstétrica no Brasil, sintetizadas na afirmação de que “no Brasil, hoje só tem autonomia para parir quem tem dinheiro”, apontando disparidades entre os sistemas público e privado.
Ao longo da sessão, ficou evidente que a obstetrícia contemporânea se encontra em um ponto de tensão entre avanços tecnológicos, humanização do cuidado e garantia da autonomia da mulher. Como síntese, reforçou-se que a cesariana permanece como um procedimento essencial e salvador de vidas, mas cuja indicação deve ser criteriosa e orientada por princípios éticos e clínicos.