A oftalmologia esteve no centro dos debates da sessão realizada pela Academia Nacional de Medicina nesta quinta-feira (30). Ao longo do encontro, especialistas discutiram alguns dos principais desafios contemporâneos da área, entre eles a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), o melanoma de coroide, os avanços da genética aplicada às doenças oculares e as novas abordagens terapêuticas para o glaucoma.

A abertura da sessão foi conduzida pelos acadêmicos Rubens Belfort e Oswaldo Moura Brasil. Professor Belfort ressaltou que a proposta do encontro foi promover “uma discussão qualificada sobre temas relevantes e atuais, capazes de suscitar questionamentos e contribuir para a prática médica”, além de reunir especialistas reconhecidos e representantes das novas gerações da oftalmologia.
Já Professor Oswaldo Moura Brasil destacou o impacto populacional dos temas escolhidos, enfatizando que muitas das doenças abordadas extrapolam a oftalmologia e dialogam diretamente com desafios contemporâneos da medicina.
A primeira exposição da sessão foi conduzida pelo professor Oswaldo Ferreira Moura Brasil, que abordou as alterações da mácula associadas ao envelhecimento. Durante a apresentação, o especialista destacou que a perda visual aumenta progressivamente com a idade e já afeta cerca de um em cada dez idosos no Brasil.

Ele ressaltou os impactos sociais e funcionais da deficiência visual, como maior risco de depressão, quedas, acidentes e dificuldades de inserção social e profissional.
Entre as principais causas de perda visual, citou erros refrativos e catarata, considerados reversíveis, além de doenças mais complexas, como glaucoma, retinopatia diabética e a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), apontada como a principal causa de perda visual severa e irreversível em países desenvolvidos.
O especialista também alertou para fatores de risco modificáveis, especialmente o tabagismo, e apresentou estratégias de prevenção e tratamento, incluindo suplementação antioxidante, terapias anticomplemento e tratamentos antiangiogênicos.
Professor Oswaldo Ferreira Moura Brasil, ao final, reforçou a importância do diagnóstico precoce: “Muitas dessas doenças são progressivas, mas várias são tratáveis e algumas potencialmente reversíveis. O diagnóstico precoce continua sendo o principal fator para preservar a visão e a qualidade de vida.”
Na sequência, o Dr. Rubens Belfort Neto apresentou o tema do melanoma de coroide, considerado o tumor ocular maligno intraocular mais frequente em adultos.

O especialista destacou a raridade da doença, com incidência estimada em cerca de três casos por milhão no Brasil, e explicou que o diagnóstico pode ser desafiador. Também apresentou a plataforma Oncofone, criada para facilitar a discussão de casos suspeitos entre oftalmologistas e especialistas em oncologia ocular.
Durante a palestra, ele ressaltou que o melanoma de coroide possui características biológicas diferentes do melanoma de pele e que a disseminação metastática ocorre principalmente pelo sangue, com predileção pelo fígado.
Em relação ao tratamento, a braquiterapia com placas radioativas foi apontada como a principal estratégia terapêutica, permitindo preservar o olho em muitos casos. A apresentação foi encerrada com destaque para ações de conscientização e diagnóstico precoce.
A sessão prosseguiu com uma apresentação sobre genética aplicada à oftalmologia, demonstrando como alterações genéticas influenciam diversas estruturas oculares e podem modificar completamente o manejo clínico.
A palestrante, Dra. Olívia Zin, ressaltou que o teste genético vai além da confirmação diagnóstica, contribuindo para definição prognóstica, identificação de comorbidades, aconselhamento familiar e inclusão de pacientes em terapias inovadoras e ensaios clínicos.

Por meio de casos clínicos, foram apresentados exemplos em que o diagnóstico genético evitou exames invasivos, corrigiu diagnósticos equivocados e permitiu identificar síndromes sistêmicas associadas a alterações oculares.
A retinose pigmentar foi citada como exemplo de doença genética progressiva com potencial de inclusão em pesquisas clínicas e terapias em desenvolvimento. Também foram destacadas terapias gênicas já aprovadas, como tratamentos para amaurose congênita de Leber, que vêm demonstrando resultados promissores na melhora da função visual.
Na continuidade da programação científica, o oftalmologista Eduardo Novais aprofundou a discussão sobre a fotobiomodulação como alternativa terapêutica para DMRI.

Segundo ele, a técnica utiliza estímulos luminosos para atuar sobre a mitocôndria celular, promovendo efeitos anti-inflamatórios, redução da morte celular e modulação de fatores angiogênicos.
O especialista apresentou resultados dos estudos Lightsite 1, 2 e 3, que demonstraram ganhos visuais médios em pacientes acompanhados por até dois anos. Apesar dos resultados promissores, ele destacou a necessidade de cautela:
“Os ganhos ainda são limitados em termos de impacto na qualidade de vida e nem todos os desfechos analisados eram objetivos principais dos estudos.”
Novaes também chamou atenção para o alto custo da terapia e para a necessidade de reaplicações periódicas, fatores que restringem sua ampla adoção.
Durante o debate, o Acadêmico Rubens Belfort Jr. destacou o caráter inovador da técnica e ressaltou como descobertas da pesquisa básica podem evoluir para aplicações clínicas relevantes.
Já o Professor Oswaldo Moura Brasil avaliou que a fotobiomodulação pode representar uma alternativa complementar em casos selecionados, embora ainda não configure solução definitiva.
A etapa final da sessão foi dedicada ao glaucoma, uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo.
O professor Paulo Augusto de Arruda Mello destacou os desafios relacionados ao diagnóstico precoce e à adesão ao tratamento, lembrando que muitos pacientes permanecem assintomáticos por anos.

A apresentação enfatizou a mudança de paradigma no manejo do glaucoma primário de ângulo aberto, com a trabeculoplastia seletiva a laser (SLT) passando a ocupar posição de destaque como tratamento de primeira linha.
Entre os benefícios apontados para a SLT estão:
Os especialistas também discutiram os limites do tratamento exclusivamente medicamentoso, especialmente diante da baixa adesão aos colírios e dos efeitos inflamatórios causados pelo uso crônico.
Os especialistas destacaram que o glaucoma envolve mecanismos muito mais amplos do que apenas o aumento da pressão intraocular. Aspectos genéticos, alterações vasculares e características estruturais do nervo óptico também exercem papel importante na evolução da doença.