Terapias incretínicas ampliam fronteiras da endocrinologia em sessão da ANM

14/05/2026

A Academia Nacional de Medicina promoveu, nesta sexta-feira (14), a sessão científica “Endocrinologia: Terapia Incretínica, GLP-1 e GIP, na Prática – Bases, Aplicações e Futuro”, com foco nos avanços dessas terapias no tratamento do diabetes, obesidade e outras doenças associadas.

A abertura foi conduzida pelo acadêmico Antonio Egidio Nardi, que destacou como os medicamentos inicialmente desenvolvidos para o diabetes tipo 2 passaram a ocupar espaço importante em diferentes áreas da medicina. Segundo ele, as terapias incretínicas já impactam especialidades como cardiologia, nefrologia, hepatologia, neurologia e psiquiatria

Na coordenação dos trabalhos, o acadêmico Rui Maciel explicou que a proposta da sessão foi apresentar desde os mecanismos fisiológicos das incretinas até suas aplicações clínicas e possíveis limitações.

GLP-1 e GIP

A primeira conferência foi ministrada pelo acadêmico Carlos Alberto Mandarim-de-Lacerda, professor titular da UERJ, que abordou o papel do GLP-1 e do GIP no eixo entero-cerebral-metabólico. Durante a exposição, ele explicou como esses hormônios atuam no controle glicêmico, na secreção de insulina e em funções neurológicas e metabólicas.

Acadêmico Carlos Alberto Mandarim-de-Lacerda

Segundo o acadêmico, as incretinas deixaram de ser vistas apenas como hormônios intestinais e passaram a demonstrar efeitos sistêmicos metabólicos, cardiovasculares, imunológicos e neurológicos. “Hoje elas representam um verdadeiro fenômeno biomédico e social”, afirmou.

Professor Mandarim destacou ainda a presença de receptores de GLP-1 em áreas cerebrais ligadas à saciedade, memória e comportamento, como hipotálamo e sistema límbico. Entre os benefícios observados estão redução da hemoglobina glicada, perda de peso, diminuição da inflamação sistêmica e melhora da esteatose hepática.

Ele também relembrou a trajetória do desenvolvimento dessas terapias, desde a descoberta da molécula exendina-4 na saliva do “Monstro de Gila” até a chegada dos agonistas duplos mais modernos, como a tirzepatida.

Neurodegeneração

Um dos pontos centrais da palestra foi a relação entre obesidade, diabetes tipo 2 e doenças neurodegenerativas. “Alguns pesquisadores chamam a doença de Alzheimer de diabetes tipo 3”, explicou.

Segundo ele, a neuroinflamação pode funcionar como elo entre alterações metabólicas e comprometimento cognitivo, abrindo novas possibilidades terapêuticas para os agonistas incretínicos.

Professor Mandarim apresentou ainda estudos experimentais conduzidos na UERJ mostrando que a tirzepatida reduziu alterações comportamentais induzidas por neuroinflamação em modelos animais. Ao resumir sua apresentação, afirmou que “as incretinas atualmente representam uma plataforma terapêutica neuroimunometabólica e não apenas ferramentas metabólicas”.

Uso racional

Na sequência, o Honorário Nacional Antônio Roberto Chacra fez uma análise crítica sobre o uso clínico dessas medicações. Ele diferenciou os medicamentos orais dos agonistas injetáveis do receptor de GLP-1, ressaltando que estes últimos promovem controle glicêmico mais robusto e perda de peso significativa.

Honorário Nacional Antônio Roberto Chacra

Apesar dos benefícios, Dr. Chacra alertou para o uso indiscriminado das medicações, especialmente para fins estéticos. “Está havendo um exagero sobre o uso desses agentes para fins cosméticos”, afirmou.

O endocrinologista destacou a importância de avaliação médica individualizada, principalmente em pacientes com histórico pancreático, cálculos biliares ou alterações tireoidianas. “Não pode haver esse uso indiscriminado que está havendo atualmente”, reforçou.

O debate também contou com a participação do acadêmico Gerson Canedo de Magalhães, que apresentou dados recentes discutidos na American Academy of Neurology sobre benefícios cardiovasculares e renais associados aos agonistas de GLP-1.

A acadêmica Eliete Bouskela levantou questionamentos sobre o papel da atividade física e da irisina na prevenção de demências, ampliando a discussão sobre os efeitos metabólicos e cognitivos do exercício físico.

Massa muscular

Outro tema de destaque foi a perda de massa muscular associada ao emagrecimento acelerado promovido por medicamentos como semaglutida e tirzepatida. A acadêmica Mônica Gadelha chamou atenção para a necessidade de preservar massa magra durante o tratamento da obesidade, especialmente em idosos.

A Acadêmica Mônica Gadelha chamou atenção para a necessidade de preservar massa magra durante o tratamento da obesidade, especialmente em idosos

Em resposta, Dr. Chacra reforçou a importância da prática de exercícios físicos e do acompanhamento nutricional durante o tratamento. “O paciente que vai fazer uso dessas medicações tem que fazer exercício”, afirmou.

Novas perspectivas

Ao longo da sessão, os especialistas destacaram que as terapias incretínicas vêm transformando o tratamento do diabetes e da obesidade e abrindo novas perspectivas para outras áreas da medicina. Ao mesmo tempo, reforçaram a necessidade de acompanhamento médico rigoroso, uso racional e ampliação das pesquisas científicas, principalmente no campo das doenças neurodegenerativas.

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