Um século depois de receber Marie Curie como membro honorário, a Academia Nacional de Medicina voltou a percorrer os caminhos deixados pela cientista em sua passagem pelo Brasil. Em sessão especial realizada nesta quinta-feira (10), a instituição reuniu história da medicina para marcar os 100 anos da visita da cientista ao país e de sua posse na Academia.

Antes do início da programação, o público pôde conhecer uma breve exposição, instalada no hall dos elevadores, sobre a vida e a obra da cientista. A iniciativa ajudou a contextualizar a sessão e a trajetória de uma das personagens mais importantes da história da ciência.

Na abertura, o Presidente Acadêmico da ANM, Antonio Egidio Nardi, destacou que a presença de Marie Curie na instituição ultrapassa o marco de uma efeméride.
“Há acontecimentos que pertencem à história de uma instituição, outros ultrapassam os limites institucionais e passam a integrar a história da ciência de um país.”
Segundo ele, revisitar a passagem de Curie pela Academia significa também discutir o presente e o futuro da ciência. “Por isso, essa não é apenas uma sessão comemorativa. É uma sessão sobre história, sobre ciência, sobre medicina, sobre inovação e sobre o futuro”, afirmou.
A programação foi organizada pelos Acadêmicos Francisco Sampaio e José Galvão-Alves e pelo Dr. Antônio Braga Neto. Ao longo da sessão, diferentes perspectivas se complementaram para recuperar a trajetória de Marie Curie, sua relação com o Brasil e os impactos de suas descobertas na medicina contemporânea.
No quadro “Recentes Progressos”, a Dra. Lisa Morikawa apresentou a palestra “O Invisível que Cura: Avanços em Radioterapia”, estabelecendo uma conexão direta entre as descobertas de Marie e Pierre Curie e a evolução da radioterapia.

A especialista destacou o caráter aparentemente paradoxal de uma terapia baseada em algo que não pode ser visto, mas que produz efeitos concretos no tratamento do câncer.
“A gente não imagina que o tratamento invisível realmente possa proporcionar cura. Mas é isso que a radioterapia hoje representa: um invisível que cura.”
Ao abordar a evolução da especialidade, ela ressaltou duas importantes heranças relacionadas à trajetória de Marie Curie: a radiobiologia e a braquiterapia. A compreensão dos efeitos da radiação sobre os tecidos tornou-se fundamental para determinar doses e estratégias de tratamento.
“Fazer radioterapia sem entender radiobiologia não é fazer radioterapia”, enfatizou.
A apresentação percorreu ainda a evolução tecnológica da área, desde os primeiros tratamentos com fontes radioativas até técnicas mais precisas, como a radioterapia conformacional, a radioterapia de intensidade modulada e a estereotaxia.
Ao final, Lisa retomou a dimensão histórica das descobertas de Curie para mostrar como elas continuam presentes na prática médica.
“Aquele invisível que a Marie Curie descobriu se transformou hoje numa base do tratamento que cura milhões de pacientes com câncer mundo afora.”
Na sequência, o Acadêmico e ex-presidente da ANM Francisco Sampaio apresentou a conferência “Marie Curie – 100 Anos da Posse na Academia Nacional de Medicina: Trajetória Científica, Legado e Impacto na Ciência Contemporânea”.

Apaixonado pela história da medicina, o Acadêmico percorreu diferentes momentos da vida da cientista, desde sua infância em Varsóvia até a formação em Paris, a parceria científica com Pierre Curie e as descobertas que modificaram os rumos da física e da medicina.
Ele também destacou as barreiras de gênero enfrentadas por Curie mesmo depois de alcançar reconhecimento internacional.
“Marie Curie, com sua genialidade e ousadia, enfrentou preconceitos em uma época que a mulher não tinha vez, não tinha voz.”
Outro capítulo importante da apresentação foi a atuação da cientista durante a Primeira Guerra Mundial, quando trabalhou para levar equipamentos de radiologia às proximidades das frentes de batalha e participou da formação de mulheres para operar essas unidades.
Foi nesse contexto que Prof. Francisco Sampaio destacou uma das dimensões mais marcantes de seu legado: a capacidade de transformar conhecimento científico em aplicação concreta para a sociedade.
Curie tornou-se a primeira mulher eleita membro honorário da ANM e também a primeira pessoa não médica a receber essa distinção, conforme apresentado durante a conferência.
O Acadêmico José Galvão-Alves coordenou a sequência do simpósio e convidou o Dr. Antônio Braga Neto para apresentar “Marie Curie no Brasil: visita e atividades acadêmicas”.

A partir de fotografias, documentos, jornais e outras fontes primárias, Braga Neto recuperou a dimensão da visita de Curie ao país. A viagem foi marcada por conferências, visitas institucionais e atividades científicas em diferentes cidades brasileiras.
“Uma visita centenária merece, portanto, ser rememorada.”
A apresentação também chamou atenção para a forma como a imprensa brasileira retratou a cientista. Em diversos registros da época, aspectos de sua aparência, roupas e vida pessoal receberam mais espaço do que suas descobertas e sua produção científica.
O contraste entre a dimensão de sua contribuição científica e o olhar lançado sobre sua condição de mulher atravessou a exposição.
Braga Neto também destacou a aproximação de Marie Curie com movimentos de defesa dos direitos das mulheres no Brasil, incluindo a atuação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e de Bertha Lutz.
Assim, a visita de 1926 foi apresentada não apenas como um episódio científico, mas como um encontro entre ciência, educação, diplomacia, imprensa e os debates sobre o papel das mulheres na sociedade brasileira.
A Acadêmica Margareth Dalcolmo deu continuidade ao simpósio com a conferência “Marie Curie: ciência, compromisso e exemplo”.

Ao falar sobre a cientista, a Acadêmica destacou a importância da curiosidade, do método e da capacidade de demonstrar cientificamente aquilo que se pretende afirmar. Para ela, o legado de Curie está também na responsabilidade assumida diante do conhecimento produzido.
“Há uma diferença essencial entre produzir conhecimento e assumir uma responsabilidade pelo conhecimento produzido.”
Profa. Dalcolmo ressaltou essa dimensão especialmente ao abordar a atuação de Marie Curie durante a Primeira Guerra Mundial e seu esforço para levar os conhecimentos sobre radiação à prática médica.
Ela também destacou a parceria intelectual entre Marie e Pierre Curie. “Havia, sem dúvida nenhuma, uma paixão entre os dois, mas enfim, muito pouco glamour e muito trabalho”, afirmou, ressaltando a dedicação do casal à pesquisa.
Outro ponto da exposição foi a necessidade de evitar uma visão idealizada da cientista.
Para a Acadêmica, Marie Curie não deve ser transformada em uma figura perfeita ou em uma “santa laica”. Sua trajetória também foi marcada por perdas, contradições, dificuldades e escolhas pessoais.
A reflexão conduziu a uma questão sobre a própria história da ciência:
“Que ciência teríamos produzido se tantas outras mulheres tivessem tido as mesmas oportunidades que Marie Curie teve?”
Ao concluir, Profa. Margareth destacou a curiosidade, o método, a disciplina, a inovação e a persistência como características centrais da trajetória da cientista.
“Marie Curie pertence, sem dúvida, a essa segunda categoria”, afirmou, ao se referir aos cientistas cuja força de vida modifica a própria compreensão sobre o fazer científico.
A programação contou ainda com uma homenagem a acadêmicas que, em diferentes áreas, representam a presença e o protagonismo feminino na medicina e na pesquisa científica.
Receberam placas comemorativas as Acadêmicas Thalita Romero Franco, Eliete Bouskela, Patricia Rocco, Mônica Roberto Gadelha, Margareth Dalcolmo, Eloisa Bonfá, Fernanda Moll e Maria Elizabeth Lopes Moreira.

A homenagem estabeleceu uma relação simbólica entre a trajetória de Marie Curie e a história de mulheres que também ampliaram espaços de participação feminina na ciência e na medicina.
Um século depois de sua posse como membro honorário da Academia Nacional de Medicina, sua passagem pela instituição permanece como parte da memória científica brasileira e como ponto de partida para discutir os caminhos que a ciência e a medicina ainda têm pela frente.