A Academia Nacional de Medicina promoveu nesta quinta-feira (13) uma sessão dedicada aos desafios atuais da tuberculose, reunindo especialistas para discutir avanços no tratamento, a resistência aos medicamentos e as perspectivas para o desenvolvimento de novas vacinas.

O tema permanece entre as grandes prioridades da saúde global. Dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde mostram avanços no diagnóstico e no tratamento, mas a tuberculose ainda causou mais de 1,2 milhão de mortes em 2024. Ao mesmo tempo, os desafios de financiamento e de acesso às novas tecnologias ameaçam comprometer os progressos alcançados.
A Acadêmica Margareth Dalcolmo destacou a evolução dos tratamentos e as perspectivas de redução do tempo necessário para combater a doença, especialmente nos casos de tuberculose resistente.

“Muito provavelmente, daqui a dois ou três anos, seremos capazes de reduzir o tempo de tratamento”.
A especialista ressaltou, no entanto, que a incorporação de novos medicamentos exige estudos rigorosos e acompanhamento constante para evitar o surgimento de novas formas de resistência. Nós não estamos autorizados a associar fármacos que não tenham sido estudados”.
O debate acompanha uma mudança importante no cenário internacional. Em 2025, a OMS atualizou suas recomendações para a tuberculose resistente, incluindo novos esquemas totalmente orais e com duração de seis meses para determinados pacientes.
O Professor Jorge Luiz Rocha, diretor do Centro de Referência Professor Hélio Fraga, abordou a experiência brasileira no tratamento da tuberculose resistente e chamou atenção para os fatores que vão além da prescrição dos medicamentos.
Segundo ele, mesmo tratamentos mais curtos exigem uma estrutura capaz de garantir diagnóstico, acompanhamento e adesão.
“Seis meses ainda é um tempo longo. E a gente sabe que a interrupção do tratamento não é tardia, ela é precoce, nos dois primeiros meses”.
Para o especialista, o enfrentamento da tuberculose também passa pelas condições sociais e econômicas dos pacientes. “Enquanto a gente não acessar a questão social e econômica, vai demorar muito para controlar a tuberculose sensível e resistente no nosso país.”
O Professor Julio Henrique Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz em Mato Grosso do Sul e professor titular da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, apresentou os principais desafios para o desenvolvimento de novas vacinas contra a tuberculose.
Croda destacou que ampliar a capacidade brasileira de pesquisa e produção de tecnologias é fundamental para enfrentar uma doença que continua atingindo, de forma desproporcional, as populações mais vulneráveis. Nesse contexto, apresentou o desenvolvimento de uma vacina brasileira baseada em RNA e defendeu a criação de uma rede nacional capaz de acelerar a realização dos estudos clínicos.
“Por que precisamos fazer isso de forma rápida? Porque temos uma tecnologia brasileira e um problema de saúde brasileiro”.
A urgência apontada pelo pesquisador está inserida em um cenário de intensa busca por novas estratégias de prevenção. O desenvolvimento de vacinas é hoje uma das principais frentes da pesquisa mundial em tuberculose. Em agosto de 2025, havia 18 candidatos vacinais em desenvolvimento clínico, seis deles já na fase 3 de estudos. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), avanços tecnológicos, incluindo uma nova vacina eficaz, serão fundamentais para alcançar as metas globais de controle da doença.
Além do desenvolvimento tecnológico, ele chamou atenção para a necessidade de que as novas estratégias considerem as populações mais afetadas pela tuberculose. Ao abordar a realidade das pessoas privadas de liberdade e das pessoas vivendo com HIV, ressaltou que uma eventual nova vacina deverá contemplar especialmente esses grupos.
“Se a gente quer eliminar a tuberculose da América Latina, eventualmente uma nova vacina precisa ser direcionada para pessoas vivendo com HIV, mas também para pessoas privadas de liberdade”.
A apresentação encerrou um ciclo de discussões que evidenciou o momento de importantes avanços científicos no enfrentamento da tuberculose. Ao longo das conferências, foram abordados novos medicamentos, esquemas terapêuticos mais curtos e estratégias inovadoras de prevenção, reforçando que o desenvolvimento de vacinas representa uma das frentes mais promissoras para transformar o combate à doença e avançar rumo à sua eliminação.