A queda das coberturas vacinais, o avanço da desinformação e a necessidade de fortalecer a confiança da população nas vacinas pautaram a sessão da Diretoria da Academia Nacional de Medicina dedicada ao tema “Hesitação Vacinal”, nesta quinta-feira (23). O encontro, coordenado pelo presidente da ANM, Acadêmico Antonio Egidio Nardi, e pela coordenadora de Imunização da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Dra. Lely Guzmán, reuniu especialistas que defenderam uma atuação integrada entre ciência, comunicação, educação e políticas públicas para ampliar a adesão à vacinação no país.

A primeira conferência foi conduzida pela Acadêmica Margareth Dalcolmo, que apresentou uma análise sobre a hesitação vacinal sob a perspectiva da pesquisa científica. Segundo ela, o fenômeno antecede a pandemia de Covid-19, mas foi intensificado pela disseminação de informações falsas e pela perda de confiança nas instituições.

“A hesitação vacinal passou a ser um marcador em saúde, porque é um problema em todo o mundo, seja no mundo desenvolvido, seja no mundo não desenvolvido.”
Ela lembrou que o Brasil registrou uma das maiores quedas na cobertura vacinal infantil da América Latina após a pandemia e destacou que a vacinação permanece como a principal ferramenta para prevenir doenças e reduzir mortes.
“O que fazia diferença na mortalidade e na morbidade da doença era a cobertura vacinal.”
A acadêmica também ressaltou que campanhas de imunização precisam considerar as diferentes realidades do país, defendendo estratégias regionalizadas de comunicação.
“A estratégia não pode ser única num país grande e complexo como o Brasil.”
Ao abordar o papel da comunidade científica, Professora Margareth afirmou que pesquisadores precisam participar ativamente do diálogo com a sociedade para combater a desinformação e aproximar o conhecimento científico da população.
“Nós não podemos nos dar ao luxo de dizer: ‘somos acadêmicos e não vamos nos meter’. Esse diálogo é uma tarefa nossa.”
Na segunda conferência, o Acadêmico Celso Ferreira Ramos Filho abordou os desafios da hesitação vacinal entre estudantes universitários e destacou que o comportamento diante das vacinas vai muito além do acesso à informação científica.

Segundo ele, crenças, emoções, valores e o ambiente social influenciam diretamente a tomada de decisão.
Ele explicou que os jovens universitários possuem características próprias, como autonomia, intensa exposição às redes sociais e sentimento de invulnerabilidade, o que exige estratégias específicas de comunicação.
Para o Acadêmico, campanhas baseadas apenas na transmissão de informações técnicas tendem a ser pouco eficazes. Ele defendeu ações construídas com diálogo, empatia e identificação entre quem comunica e o público.
“Dizer simplesmente que a vacina é boa e que as pessoas têm que se vacinar não funciona.”
Durante o debate com a plenária, o Acadêmico José Gomes Temporão afirmou que recuperar as coberturas vacinais exige fortalecer permanentemente o Sistema Único de Saúde (SUS) e a Atenção Primária à Saúde.

Ele apresentou uma proposta organizada em seis eixos estratégicos: fortalecimento da Atenção Primária; integração entre vacinação, escolas e cuidado infantil; combate à desinformação como política de Estado; fortalecimento da confiança nos serviços de saúde; redução das barreiras de acesso; e ampliação da capacidade nacional de pesquisa e produção de vacinas.
Para o Professor Temporão, a vacinação depende, sobretudo, da relação construída entre profissionais de saúde e população: “A vacinação é um ato relacional.”
Ele também defendeu a ampliação da Estratégia Saúde da Família, da vacinação nas escolas e da busca ativa por pessoas não vacinadas, além de reforçar a necessidade de uma comunicação científica contínua e acessível.
“A confiança da população não se constrói apenas com dados científicos, mas também com escuta qualificada, presença institucional e comunicação consistente.”
O Acadêmico Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro destacou que a vacinação representa uma das maiores conquistas da medicina moderna e reforçou a necessidade de investir em educação científica desde a infância para enfrentar a desinformação.

“A vacinação é o procedimento isolado de maior impacto em saúde pública depois do hábito de lavar as mãos.”
Representando a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Lely Guzmán ressaltou que o enfrentamento da hesitação vacinal passa pelo fortalecimento da confiança da população nas vacinas, nos profissionais de saúde e nas instituições.
Ela destacou a importância da cooperação entre a OPAS, a Academia Nacional de Medicina, o Ministério da Saúde e demais parceiros para ampliar o alcance das evidências científicas e desenvolver estratégias de comunicação mais efetivas.
Ao encerrar sua participação, afirmou:
“Precisamos de mais espaços para debater como podemos desenvolver pesquisas que cheguem à população para gerar credibilidade.”
Nas considerações finais, os participantes convergiram para um consenso: recuperar as coberturas vacinais exige muito mais do que campanhas pontuais. O fortalecimento do Sistema Único de Saúde, da Atenção Primária à Saúde, do Programa Nacional de Imunizações (PNI), da comunicação baseada em evidências e da educação científica foi apontado como fundamental para reconstruir a confiança da sociedade na vacinação.
Ao longo da sessão, especialistas também defenderam o enfrentamento estruturado da desinformação, o desenvolvimento de estratégias de comunicação adaptadas às diferentes realidades do país e uma participação cada vez mais ativa da comunidade científica no diálogo com a população.