Academia Nacional de Medicina reúne especialistas para discutir avanços e desafios no enfrentamento das demências

03/09/2026

A Academia Nacional de Medicina reuniu, nesta quinta-feira (03), especialistas para discutir avanços e desafios relacionados às demências, com destaque para a doença de Alzheimer. Na ocasião, foi realizada a outorga do título de Honorário Nacional concedida ao Professor ao médico e pesquisador Ricardo Nitrini, seguida da sessão científica “Demências: da Pesquisa Aplicada à Clínica”, que promoveu um amplo debate sobre os mecanismos da doença, novas possibilidades diagnósticas, prevenção e cuidado.

Outorga do título de Honorário Nacional concedida ao Professor ao médico e pesquisador Ricardo Nitrini

Coordenado pelos Acadêmicos Osvaldo Nascimento e Eliete Bouskela, o encontro reuniu pesquisadores para abordar diferentes aspectos do comprometimento cognitivo, aproximando a pesquisa científica da prática clínica.

Sessão científica “Demências: da Pesquisa Aplicada à Clínica”

Entre os temas discutidos estiveram os mecanismos moleculares relacionados à doença de Alzheimer. O Professor Mychael Lourenço, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou que a forma esporádica da doença resulta da interação de fatores genéticos, biológicos, ambientais e relacionados ao estilo de vida.

O Professor Sergio Ferreira, também da UFRJ, apresentou pesquisas sobre possíveis alvos terapêuticos, incluindo estudos relacionados à sinalização cerebral por insulina, inflamação, análogos de GLP-1 e IGF-1 e à irisina, hormônio associado ao exercício físico. As discussões reforçaram a complexidade da doença e a necessidade de compreender a interação entre diferentes mecanismos.

Novas perspectivas para o diagnóstico

Os avanços nos biomarcadores foram outro destaque da sessão. A Acadêmica Fernanda Moll apresentou estudos relacionados à beta-amiloide, à proteína tau e à neurodegeneração, incluindo marcadores identificados no plasma sanguíneo.

A possibilidade de utilizar exames de sangue na investigação da doença pode ampliar o acesso ao diagnóstico e complementar métodos como exames de imagem e análise do líquido cefalorraquidiano. A especialista, porém, ressaltou a importância do uso criterioso dessas ferramentas, uma vez que parte dos biomarcadores ainda está em fase de pesquisa.

O encontro também abordou o uso de inteligência artificial na análise de imagens cerebrais e novas ferramentas para investigar alterações associadas ao envelhecimento e ao declínio cognitivo.

Prevenção e realidade brasileira

A prevenção das demências também esteve entre os principais pontos do debate. Atividade física e hábitos de vida foram discutidos como fatores potencialmente modificáveis, ao lado da necessidade de políticas públicas que considerem as desigualdades socioeconômicas e o acesso aos serviços de saúde.

A Professora Sonia Brucki, da Universidade de São Paulo (USP), apresentou dados sobre a epidemiologia do comprometimento cognitivo no Brasil e chamou atenção para o envelhecimento populacional, o subdiagnóstico e as desigualdades no acesso ao cuidado.

“Envelhecer não é igual a ter prejuízo cognitivo”, destacou a especialista, ressaltando a importância do diagnóstico adequado e do fortalecimento da atenção primária e do Sistema Único de Saúde (SUS).

O impacto das demências sobre as famílias também foi discutido, especialmente a sobrecarga dos cuidadores e as consequências sociais e econômicas associadas à necessidade de cuidados contínuos.

Infecções e doenças autoimunes

A programação ampliou ainda a discussão para condições inflamatórias, autoimunes e infecciosas relacionadas ao comprometimento cognitivo.

O Acadêmico Osvaldo Nascimento abordou doenças autoimunes e inflamatórias, enquanto o Professor Ricardo Nitrini discutiu a relação entre infecções e declínio cognitivo, apresentando desde referências históricas, como a neurossífilis, até estudos recentes sobre doenças neurodegenerativas.

Segundo dados apresentados por Nitrini, em uma análise de casos de demência rapidamente progressiva realizada na Clínica Neurológica, doenças infecciosas corresponderam a 17,9% dos casos analisados, enquanto doenças imunomediadas representaram a maior parte da casuística.

O paciente no centro do debate

No encerramento, o Presidente da Academia Nacional de Medicina, Acadêmico Antonio Egidio Nardi, abordou a experiência humana da demência na apresentação “A Demência em Filmes”.

A partir do cinema, Nardi discutiu questões como identidade, autonomia, relações familiares e o impacto da doença sobre pacientes e cuidadores. “Mas falta o paciente. Falta o sofrimento humano da demência”, afirmou.

A reflexão reforçou que a demência ultrapassa a perda cognitiva e afeta relações, autonomia e qualidade de vida.

Ao reunir diferentes perspectivas, a sessão científica evidenciou que o enfrentamento das demências exige a integração entre pesquisa, prevenção, diagnóstico, tratamento e cuidado. Os avanços científicos ampliam as possibilidades de compreensão e intervenção, mas o desafio permanece também em garantir acesso ao diagnóstico e ao cuidado e colocar no centro da discussão as pessoas que vivem com demência e suas famílias.

Assista a sessão completa clicando aqui e aqui.

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