A Academia Nacional de Medicina promoveu, nesta quinta-feira (09), uma jornada científica marcada pela valorização do raciocínio clínico, pelos avanços no tratamento do câncer de pâncreas e pelas novas abordagens no manejo das hemorragias digestivas. As sessões reuniram acadêmicos, especialistas e estudantes para discutir a integração entre clínica, pesquisa e inovação na medicina.

A Sessão de Casos Clínicos da ANM, coordenada pelo Acadêmico José Galvão-Alves, apresentou um caso raro de neurofibroma plexiforme intestinal associado à neurofibromatose tipo 1. O caso reforçou a importância da semiologia e da avaliação clínica detalhada para o diagnóstico.
O paciente, um comerciante de 44 anos, apresentava diarreia crônica, dor abdominal e perda de aproximadamente 20 quilos em oito meses. Durante a apresentação, Galvão destacou a gravidade do quadro:
“Uma diarreia crônica com vinte quilos de emagrecimento em oito meses.”
O neurologista Dr. Rafael Espíndola explicou que, apesar da suspeita inicial de câncer colorretal, sinais encontrados no exame físico — como manchas café-com-leite, neurofibromas cutâneos e nódulos de Lisch — direcionaram a investigação para a neurofibromatose tipo 1.

“Era olhar para o paciente e começar a levantar uma hipótese diagnóstica.”
Segundo Espíndola, o diagnóstico da doença é essencialmente clínico:
“O diagnóstico da neurofibromatose é feito basicamente pelo exame físico.”
A confirmação do neurofibroma plexiforme foi realizada pelo Acadêmico Carlos Alberto Basílio de Oliveira, responsável pela análise anatomopatológica. Ele destacou que o diagnóstico diferencial é fundamental antes da conclusão definitiva.

“A coisa mais importante não é o diagnóstico, mas o diagnóstico diferencial.”
A análise da peça cirúrgica e os exames de imunohistoquímica confirmaram a presença do tumor benigno.
“A imunohistoquímica foi a revolução marrom. É ela que, em grande parte dos casos, fecha o diagnóstico.”
Após a cirurgia, o paciente apresentou melhora completa dos sintomas, recuperação nutricional e retorno às atividades profissionais.
Para José Galvão-Alves, o caso demonstrou a importância da união entre diferentes áreas da medicina:
“O diagnóstico da neurofibromatose estava feito na clínica, mas o diagnóstico do neurofibroma plexiforme só podia ser feito depois da patologia.”
O ex-presidente da ANM, Acadêmico Pietro Novellino, relembrou a criação da Sessão Clínico-Patológica – Oficina Diagnóstica, iniciativa desenvolvida junto aos Acadêmicos José Manuel Jansen, José Galvão-Alves e Carlos Alberto Basílio de Oliveira para estimular o raciocínio diagnóstico entre estudantes de Medicina.

Durante a sessão Recentes Progressos, coordenada pelo Acadêmico José Galvão-Alves, o oncologista Dr. João Fogacci apresentou resultados do estudo internacional RASolute-302 sobre o medicamento daraxonrasib (RMC-6236). A terapia atua sobre a proteína KRAS, uma das principais alterações relacionadas ao adenocarcinoma ductal de pâncreas.

“Se você desenvolver uma droga contra o KRAS, estará potencialmente ajudando cerca de um terço de todas as pessoas que têm câncer no mundo.”
Segundo Fogacci, o estudo mostrou aumento da sobrevida global dos pacientes tratados, passando de seis para treze meses.
“É o primeiro estudo em que uma droga ultrapassa a barreira de doze meses de sobrevida em pacientes com câncer de pâncreas previamente tratados.”
O especialista afirmou ainda que novos avanços devem surgir nos próximos anos a partir dessa nova estratégia terapêutica.
A sessão científica sobre Hemorragia Digestiva reuniu especialistas para discutir estratégias atuais de diagnóstico e tratamento.
O Prof. Ricardo Alvariz destacou que a estabilização clínica deve ser prioridade antes da realização da endoscopia.

“Todas as outras medidas são mais importantes do que a endoscopia propriamente dita.”
A Dra. Fabiana Sartore apresentou avanços na investigação das hemorragias do intestino médio, destacando o papel da cápsula endoscópica e da enteroscopia assistida por balão.

A Dra. Fernanda Barroso encerrou as apresentações abordando o manejo da hemorragia digestiva baixa, com destaque para a avaliação de risco, a angiotomografia e novas tecnologias terapêuticas.

Durante o debate, os Acadêmicos Otávio Vaz, Carlos Eduardo Brandão de Mello e Celso Ramos destacaram a evolução do tratamento das hemorragias digestivas e a redução da necessidade de procedimentos cirúrgicos devido aos avanços da endoscopia e das terapias clínicas.

Professor Otávio Vaz ressaltou:
“Os remédios ficaram melhores, os aparelhos melhoraram e os recursos terapêuticos evoluíram.”
Ao encerrar a programação, o Acadêmico Eduardo Lopes Pontes reforçou que a atualização científica permanente é essencial para o aprimoramento da assistência médica e para a missão da Academia Nacional de Medicina.